Ushuaia 2009

MOTIVAÇÃO

A motivação de um motoqueiro, pode surgir de qualquer de modo. Por exemplo um simples mapa, onde as localidades mais distantes são os referenciais. Imagina-se a possibilidade de se alcançar um determinado ponto e a partir daí vira uma meta.

Com a conclusão da última grande viagem até o Deserto do Atacama no Chile, voltei pensando em qual seria o próximo destino? A palavra Ushuaia, entrou em cena acompanhada da frase “Fim do Mundo”, e então passei a me perguntar será que consigo chegar? A dúvida, simplesmente se transformou numa bela motivação.

PLANO

Como tinha apenas dezoito dias para a realização da viagem, um tempo relativamente curto, seria impossível conhecer todas as atrações das regiões visitadas. O plano foi baseado em outros relatos, e era muito flexível. A única condição obrigatória era chegar até a cidade de Ushuaia, na Argentina. O restante seria consequência do tempo disponível.

A idéia inicial seria chegar até Buenos Aires, Argentina, em três dias desde minha cidade natal, Cornélio Procópio/PR, Brasil. Seguir pela Ruta 3 até seu fim na baia de  Lapataia, chegando no dia 02/01/2009 a cidade de Ushuaia, Argentina. Ficaria dois dias passeando e conhecendo a cidade. Seguiria então para o Chile com destino a Torres del Paines. Regressaria a Argentina, conhecendo o Glaciar Perito Moreno e seguiria pela Ruta 40, até San Carlos de Bariloche e Neuquen, e voltaria ao Brasil no dia 12/01/2009.

Em relação a idéia inicial, a passagem pela Ruta 40, foi descartada por não estar toda pavimentada, ou seja, conhecer Bariloche ficou para a próxima.

A VIAGEM

 26/12/08 – Cornélio Procópio/PR-BR – Cascavel/PR-BR (Distância Percorrida no Dia 01: 441km)

As viagens sempre começam com despedidas, as minhas normalmente iniciam em Cornélio Procópio, Paraná, Brasil.

O trajeto inicial normalmente é conhecido, por isso as fotos para valer começam uma pouco mais adiante.

Em Cascavel, oeste do estado paranaense, é o local para montar as malas na moto e partir para o desconhecido no dia seguinte.

 27/12/08 – Cascavel/PR-BR – Chajarí-RA (Dia 02: 937km)

A noite foi muita longa e a todo instante acordava. Devo isso a ansiedade pelo grande dia que viria.

Que efetivamente começou às 5:30h (BR), quando o despertador cumpriu sua função. Tomei o café da manhã, enquanto pensava se não estava esquecendo nada. Acertei os últimos detalhes e parti rumo a distante cidade no fim do mundo, Ushuaia, na parte argentina da Terra do Fogo.

O último detalhe que faltava era o seguro (Carta Verde). Em Foz do Iguaçú/PR-BR fui ao posto onde fica a seguradora Magna Seguros (45 3577-4144), aproveitei e abasteci a moto. Enquanto me arrumava para seguir, meu amigo Emerson Ito aparece junto com seu amigo. Conversamos um pouco sobre meus planos audaciosos, me desejaram boa viagem e fui para a seguradora. Tudo resolvido, de posse da famosa Carta Verde, segui para a cidade e a para a fronteira.

Cumpri as exigências para a saída e entrada do Brasil e Argentina, com uma certa demora na aduana argentina.

Aproveitei para cambiar (trocar) reais por dólares, pesos argentinos e pesos chilenos, no complexo da aduana argentina. Havia muita gente e a espera na fila foi longa. Tomei uma Sprite, comi um chocolate e segui para a moto.

Enquanto arrumava as luvas e a câmera para seguir viagem, um taxista puxou conversa. Ele me contou que era de Curitiba e estabeleceu-se em Ciudad del Leste, no Paraguai. Casou-se com uma paraguaia e tem duas filhas médicas, isso tudo depois de até morar nas ruas curitibanas. Parabenizei-lhe pela bela história e às 10:15h (BR), depois de um certo atraso, estava seguindo meu caminho.

Logo adiante num trevo em Puerto Iguazu-RA, parei para registrar uma foto, conversei com um senhor que esperava uma carona. Disse-me que morou no Ushuaia e rasgou elogios ao lugar e sugeriu que conhecesse também os Monumentos Petrificados (próximo a Fitz Roy-RA), segundo ele uma atração imperdível. O que me empolgou ainda mais para continuar adiante.

Toquei direto até Posadas-RA, com pequenas pausas para fotos. Parei no mesmo posto YPF da viagem anterior ao Chile. Aproveitei, abasteci a moto após tomar um calorão na pequena fila para abastecer. Segui para a loja de conveniência, enquanto várias pessoas me observavam, fiquei um pouco sem graça, mas tudo bem iria me acostumar. Fiz um lanche, acompanhado das famosas empanadas argentinas (já estava com saudades dessa iguaria portenha).

Voltei para a moto e conversei com um menino, que cuidava dos carros por alguns trocados. Chamou-me a atenção a forma como olhava para a moto e pra mim, uma mistura de surpresa e admiração, não sei explicar muito bem. Acabei dando-lhe um peso. Outra situação interessante, foi a atenção com que dois senhores me orientaram sobre o caminho até Buenos Aires-RA. Neste ponto os argentinos, geralmente, são muito prestativos e tratam muito bem seus turistas, em especial aos brasileiros.

Voltando a viagem, segui por infindáveis retas rumo a Chajarí-RA, que seria meu destino final no dia. Esta cidade foi indicada por um senhor num posto de combustível após Guaviraví-RA. Ele e outro funcionário questionaram-me sobre a viagem e me deram algumas dicas, inclusive a cidade para hospedar. Um cliente argentino entrou na conversa, e até indicou uma festa que não entendi muito bem onde era, e no fim da conversa disse-me num tom de brincadeira e provocação que o número um era o Diego, o Diego Maradona e não o Pelé. Que iria dizer? Não tem como discutir estes assuntos com nossos hermanos. Simplesmente sorri.

Em Paso de Los Libres-RA, abasteci a moto e segui viagem, agora um pouco mais apressado, hora ou outra a uns 140km/h. Nos últimos 50km a estrada não estava muito boa, havia muitos reparos e obras ao lado da pista, e inclusive um desvio, pois construíam um viaduto.

O que me chamou a atenção durante o dia, foram os vários carros parados no acostamento a procura de ajuda, creio que devido ao calor e a má conservação dos carros causaram a quebra. Esperava que não ocorresse algo semelhante comigo, era o que imaginava ao ver os veículos e seus preocupados donos.

28/12/08 – Chajarí-RA – Buenos Aires-RA (Dia 03: 508km)

O dia começou bem, tive uma boa noite de sono e tomei um bom café da manhã. Completei o nível de óleo da moto, lubrifiquei a corrente, abasteci a moto e às 09:00h (BR) estava na Ruta 14 rumo a Buenos Aires-RA, a capital federal argentina.

A rodovia em geral estava boa, com algumas partes de asfalto remendado (buracos tapados). A rodovia parecia um enorme canteiro de obras, para a construção de uma autopista. Com exceção da Ruta 9 na chegada a Buenos Aires-RA que é algo de cinema, uma autopista com cinco trochas (faixas) nos dois sentidos, uma maravilha. Tão maravilhosa que às vezes me perdia com tantas opções de faixas, não sabia em qual circular.

Próximo a Colón-RA fiz minha primeira parada num posto de serviço, para comer e beber algo. Encontrei mais um prestativo senhor, que me deu algumas informações.

Seguindo pela Ruta 14, próximo a cidade de Gualeguaychu-RA, fiz o primeiro abastecimento do dia. Aproveitei e comprei um inflador (bomba para encher pneu), para caso precisasse, era melhor prevenir. Na volta para a moto, conversei com um caminhoneiro que também ia até Bs.As. (Buenos Aires-RA).

Continuando passei por vários postos policiais, onde quase todos tinham a presença ostensiva deles. Os policiais argentinos eram amistosos, sempre ao passar por eles, eu fui cumprimentado.

Depois de Ceibas-RA, a estrada é a Ruta 12. Passei por duas grandes pontes, antes de chegar a cidade de Zarate-RA. A primeira ponte, chamada Justo Jose de Urquiza, cruza o rio de La Plata e marca o fim da província de Entre Ríos e o início da província de Buenos Aires. E a segunda ponte, sobre o rio Paraná de las Palmas.

Na chegada em Buenos Aires-RA, parei num posto Shell para pedir informações  de como chegar a Casa Rosada e Obelisco. Conheci duas simpáticas argentinas que tentaram me ajudar, mas quem efetivamente ajudou foi um casal que escutava a conversa e me indicou o caminho correto.

Estava seguindo em direção a Casa Rosada, quando um motoqueiro (Quiqui), se apresentou, me guiou até a Casa Rosada e me ajudou a encontrar um hotel. O cara foi muito “gente boa”, e ainda deixou o número do seu telefone para caso precisasse de ajuda. Muchas grácias mi amigo!

Deixei minhas coisas no hotel, e sai atrás de um estacionamento para guardar a moto. Por incrível que possa parecer nenhum aceitava moto, o principal motivo era a realização de uma festa numa boate próxima, que parecia um encontro  de médicos, pois todos trajavam roupas brancas. Os estacionamentos estavam lotados, então fui obrigar a apelar, ofereci pagar pela vaga da moto o equivalente a um carro, insisti um pouco e por fim consegui guardar a moto.

Voltei ao hotel ajeitei um pouco as malas, conversei com os recepcionistas e fui conhecer as ruas nostálgicas da capital portenha. Conheci a Casa Rosada, o Obelisco, Teatro Colón, Palacio de Justicia e a Plaza del Congreso.

O passeio começou pela famosa Avenida de Mayo, próximo ao Café Tortoni e segui rumo a Plaza de Mayo.

Na Plaza de Mayo, encontrei muitos turistas e famílias, num clima de domingão.

Entrei na Catedral Metropolitana, onde estava sendo celebrada uma missa, tirei discretamente algumas fotos e segui pela rua Presidente Roque Saenz Peña, diagonal a Avenida de Mayo,  e logo avistei ao fundo o Obelisco.

Fui a Plaza Levalle, fotografei o Teatro Colón (em reformas) e o Palacio de Justicia e segui para o Congreso Nacional.

Parei num café, comi mais umas empanadas. Aproveitei e conheci uma estação de metrô.

No hotel tomei um bom banho e voltei a caminhar pelas proximidades da avenida de Mayo, liguei para casa e falei pela primeira vez na viagem com minha mãe. Precisava dizer para ela: “Mãe, estou vivo!”

29/12/08 – Buenos Aires-RA – Bahía Blanca-RA (Dia 04: 696km)

Por volta das 4:00h (BR/RA) acordei e não dormi muito bem o restante da noite.

Busquei a moto no estacionamento às 6:30h (BR/RA) e voltei ao hotel para esperar abrir a oficina e trocar o óleo da moto. Aproveitei para tomar café da manhã ao lado do hotel e arrumar as malas na moto.

Fui até a oficina por volta das 8:30h. Como estava fechada fiquei conversando com outros motoqueiros que também esperavam. Já impaciente e por volta das 10:00h (BR/RA) fui procurar outra oficina.

Segui pela calle (rua) Lima, marginal a avenida 9 de Julio, avistei uma concessionária da Honda, parei para confirmar se trocavam o óleo da moto, voltei para buscar a moto e quando estava saindo a duas lojas adiante a concessionária da Suzuki, digamos assim, me senti em casa.

Troquei o óleo na loja da Suzuki e às 10:25h (BR/RA) estava partindo em direção a Bahía Blanca-RA a 700km dali, um pouco preocupado com o horário e não tinha muita certeza se chegaria ainda neste dia a cidade.

Fui me guiando pelas placas de sinalização para sair da cidade, e pagando os três únicos pedágios em território argentino de toda a viagem (havia um quarto pedágio, mas a moça me liberou sem pagar por falta de troco).

Acabei entrando por engano em Monte Grande-RA, aproveitei para abastecer a moto, e conhecer três figuras no posto de combustível.

Logo estava na Ruta 3, a grande companheira até a “fim do mundo”. Passei por Cañuelas-RA, e depois de alguma dificuldade, inclusive esperar o cruzamento de um trem de carga, consegui encontrar a estrada certa rumo a San Miguel del Monte-RA. E neste trecho tive uma pequena amostra dos ventos do sul, que outros motoqueiros tanto citam em seus relatos.

A rodovia até Azul-RA era uma reta só. Nesta cidade, abasteci, com a gasolina mais cara da viagem até aquele momento (A$3,52/l), e fiz uma pequena pausa. Na sequência a estrada ganhou algumas curvas e leves aclives. A paisagem hora alternava pastos, hora campos de girassóis.

Em Trés Arroys-RA, no abastecimento, conheci outros motoqueiros argentinos (um casal e um sem acompanhante). Disseram-me que a dois anos fizeram uma viagem até o Ushuaia-RA, e naquele momento estavam seguindo para Mendoza-RA. Desejamos-nos boa viagem, e cada “grupo” um seguiu seu rumo.

O clima estava um pouco quente, a estrada um pouco irregular e apresentava relevo bem plano. Viajava por longas retas e curvas eram raríssimas exceções. O vento no período da tarde, praticamente cessou.

Este dia foi muito cansativo, segui muito tempo sem parar, forçando moto e piloto. Por volta das 19:00h (BR/RA), e mais de 700km rodados, consegui cumprir minha meta diária e chegar em Bahía Blanca-RA.

Passeei um pouco pelas ruas centrais da cidade, liguei para casa, conheci o paseio (calçadão) da cidade, muito movimento por sinal, e onde jantei. Na rua do hotel encontrei até um McDonald’s (o que me ajudaria mais adiante).

Fundada em 22 de outubro de 1895, a cidade de Bahía Blanca/RA, com população de 300 mil habitantes, é o principal núcleo industrial e centro comercial do sul da província de Buenos Aires e possui um importante e estratégico porto de águas profundas.

Esta baía foi descoberta por Fernando de Magalhães em 1520, e em razão do reflexo de sua costa salitrosa, a chamaram de Bahía Blanca.

30/12/08 – Bahía Blanca-RA – Puerto Madryn-RA (Dia 05: 763km)

Após buscar a moto no estacionamento e tomar o café da manhã, voltei ao quarto para arrumar a bagagem, quando notei a falta do controle remoto. Pensei, só esta que me faltava, ter que pagar um controle remoto. Vasculhei todas as malas, retirei tudo e nada de encontrá-lo.

Fazer o que? Fui falar com o recepcionista do hotel e ouvir o que ele diria. Disse-me que já estava com controle. Quando fui buscar a moto no estacionamento, ele entrou no quarto e simplesmente retirou o controle. Fiquei aliviado e ao mesmo tempo surpreso com a atitude, mas tudo bem. Imagine se saio “de fininha” e sem falar nada, até agora estaria na dúvida. A verdade sempre é a melhor solução, custe o que custar.

O negócio foi abastecer a moto e seguir viagem. Logo estava na estrada rumo ao sul do continente e do mundo. O vento já esboçava sua força desde cedo.

Fui parado em um dos bloqueios sanitários, fiscalizavam a entrada de produtos como carne e frutas. Sem maiores transtornos, além de abrir as malas, continuei minha viagem.

Lembrando dos relatos sobre a famosa placa do início da Patagônia, fiquei procurando no acostamento, até que após uns 100km e o Rio Colorado, lá estava ela.

Ventava muito, e carregava nuvens de poeira para todos os lados, e inclusive para a rodovia. Formavam uma espécie de faixa de “neblina”, e uma dessas nuvens, estava tão densa, que branqueou toda minha visão. Pensei: será que morri ou fiquei cego? Não enxergava nada, além do branco da nuvem de pó. Foi um grande susto, mas segundos depois a poeira diminui e continuei no meio daquela “cerração” por mais alguns quilômetros. Nunca havia visto tanto pó.

Fiz uma pausa em Viedma-RA, a capital da província de Rio Negro. Na saída me perdi um pouco, e pedi ajuda para um senhor que trabalhava numa ferrovia, que me orientou e pediu para mandar lembranças aos pinguins.

Outra pausa para abastecer e hidratar-me, agora em San Antonio Oeste-RA.  O clima estava bem quente e seco, o vento havia dado uma trégua.

Um pequeno problema de planejamento impediu-me de seguir direto para Puerto Piramides-RA na Península Valdés. Seguindo informações de outros relatos, após Sierra Grande-RA haveria um posto, com combustível mais barato, e um restaurante. Realmente havia, mas estavam em ruínas e como deixei de abastecer em Sierra Grande-RA a moto não tinha autonomia para chegar a Península, seria muito arriscado.

Na chegada a Sierra Grande-RA, surgem algumas curvas e uma pequena serra, para tirar um pouco da monotonia.

Segui rumo a Puerto Madryn-RA, em meio a frustração de não conhecer a península. Fiquei na dúvida em ficar em Puerto Madryn-RA ou seguir direto para Trelew-RA e na volta conhecer a Península Valdés.

Estava bem perdido, não sabia o que fazer. No mirante para a cidade de Puerto Madryn-RA, decidi abastecer e seguir para Trelew-RA. Abastecida a moto resolvi ir para a Península Valdés. Ao percorrer  uns 10km, resolvi voltar e seguir para Trelew-RA, já que pelo horário 18:00h (RA), o acesso a reserva poderia já estar fechado. Passado uns 500m do trevo de acesso a Puerto Madryn-RA, voltei de novo e resolvi ficar em Puerto Madryn-RA, pela maior possibilidade de encontrar um lugar pra ficar.

Confuso? Imagine a minha cabeça na hora!

Puerto Madryn-RA foi o primeiro local na Patagônia, onde os gauleses aportaram, no ano de 1865. Atualmente é uma das principais cidades da Província de Chubut, e é conhecida com “La Capital Nacional del Buceo” (Mergulho).

O nome da cidade, Puerto Madryn, recorda Sir Love Jones Parry, Barão de Madryn, um dos homens mais conhecidos no país de Gales.

Encontrei um camping nesta belíssima cidade da Patagônia oceânica. Arrumei as coisas e fui conhecer um pouco mais a cidade e jantar uma deliciosa pizza em frente ao oceano Atlântico.

31/12/08 – Puerto Madryn-RA (Península Valdés-RA) (Dia 06: 203km)

Como estava difícil fazer em um dia o caminho até Río Gallegos-RA, cerca de 1200km, deveria quebrar o trecho e de preferência parar num lugar (cidade) maior, para ter maiores possibilidades de hospedagem no último dia do ano. Planejei ficar em Comodoro Rivadavia-RA. Como o trecho era curto, 440km, seria possível conhecer outros lugares. Resolvi então conhecer a Península Valdés e depois seguir para Comodoro. O plano até que era razoável, mas a concretização falhou!

Pela manhã, estava levantando acampamento e conheci dois brasileiros que viviam em Belo Horizonte, Minas Gerais, o Zé e seu prof. Sérgio. Estavam também seguindo para o Ushuaia-RA, mas numa Land Hover (outro nível). Também conheceriam a península antes de seguir para o sul. Desejamo-nos boa viagem e eles seguiram para a península, enquanto eu continuava a briga para guardar a barraca e o colchão nas respectivas bolsas.

Terminei de arrumar as coisas, segui para Península Valdés por uma estrada com longas retas, cercada pela vegetação típica da região e de muitos animais. Parecia estar num enorme zoológico, e claro torcia para que nenhum visitasse a rodovia, pois naquele momento, a mais de 100km/h, não seriam bem-vindos.

Paguei A$45,00 para entrar na reserva, no momento achei um pouco caro, comparado com o pago pelos turistas argentinos, mas com absoluta certeza vale a pena cada centavo.

Parei num centro de visitantes 20km depois da entrada. O funcionário foi bem prestativo e me deu um roteiro no qual poderia conhecer pinguins, lobos-marinhos, os leões-marinhos e se tivesse sorte ver as Orcas. O problema maior seria o tal do rípio, que ainda não conhecia de tão perto!

Segui mais uns 25km em asfalto pelo istmo até encontrar um trevo para Puerto Pirámides-RA ou seguir para Punta Norte. Tomei a segunda opção, uma estrada de rípio com destino ao norte.

Comecei devagar para me adaptar, já que o terreno era desconhecido. Fui aumentando a velocidade, 20, 30 e 40km/h, a moto até que estava indo bem, só escorregava um pouco. Resolvi aumentar para 60km/h, a velocidade que o informante me havia sugerido para andar. A moto estabilizou um pouco mais. Subi para 80km/h a moto parecia um barco deslizando nas ondas, seguia os “trilhos” deixados por outros veículos. De repente os trilhos sumiram e encontrei somente pedras espalhadas.

A moto escorregava de um lado para outro, ainda consegui resistir uns 200m mantendo a mesma velocidade (80km/h), mas como as pedras não acabaram o resultado foi…chão e malas para todos os lados.

Na queda a mala tanque (com galão cheio) voou uns 30m mais a frente. A moto girou, não sei como, ficou no sentido contrário, e prendeu contra o chão meu joelho esquerdo, que inchou um pouco, mas sem maiores problemas. Os dedos da mão esquerda ficaram um pouco ralados (nesta hora estava sem as luvas).

Desfeito o susto, o jeito era levantar a moto seguir para algum lugar. Na primeira tentativa não consegui erguer a moto, pois estava com os alforges e a barraca. Tirei toda a bagagem e fui para mais uma tentativa, desta vez com muita dificuldade e entortando um pouco o guidão consegui erguê-la.

Tentei ligar a moto e nada, nem sinal, somente o painel funcionava, mas o motor de arranque nada. Examinei a moto, a procura de alguma avaria ou algum fio solto e não encontrei nada. Comecei a acenar para pedir ajuda, passaram alguns carros, até que uma família de argentinos me ajudou, e me rebocariam até Puerto Pirámides-RA e lá eu tentaria encontrar ajuda.

Tentamos “dar um tranco” empurrando a moto e nada. O senhor amarrou a moto no carro com uma corda, e arrastou a moto um pouco até conseguir fazê-la “pegar no tranco”. Quando meus novos amigos mineiros pararam e me reconheceram.

Expliquei-lhes a situação, seguiram-me até a cidade, e pediram que fosse com eles conhecer a península. Não tive muita dúvida e aceitei prontamente o muito conveniente convite.

Deixei a moto num posto de combustível em Puerto Pirámides-RA com mala e tudo. Seguimos conhecendo de Land Rover a magnífica península, que é reconhecida desde 1999 pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade.

Seguimos por aquela estrada de rípio (Ruta 3), que realmente não era nada fácil para uma moto como a GS500 de pneus largos e lisos.

Numa bifurcação tomamos a Ruta 52. Avistamos o “El Salitral”, uma pequena pausa para fotos e continuamos rumo leste.

Decorridos pouco mais de 30km, encontramos a Ruta 47 e com ela uma colônia de pinguins Magallanes.

Nunca havia visto pinguins, a não ser pela televisão. O que mais me chamou a atenção nestas belas aves, é que não eram tão agitadas como imaginava, são muito tranquilas. Tinha até a vontade de provocá-las para ver se reagiam, mas achei melhor e prudente não arriscar.

Seguimos alguns quilômetros para o sul, pela Ruta 47, e chegamos em Punta Cantor.

Lá encontramos uma colônia de lobos-marinhos.

Seguimos para o norte pela Ruta 47 contornando a Caleta Valdés até Punta Norte. Aonde vimos vários leões marinhos, e esperamos um pouco para ver se tínhamos sorte em ver um ataque das orcas aos filhotes dos leões-marinhos, mas infelizmente não foi desta vez.

Os leões-marinhos ao contrário dos pinguins estavam bem agitados. O interessante é que o macho, maior e com a juba, ficava olhando para cima. E ao mesmo tempo tomava conta de sua(s) fêmea(s). Quando outro macho se aproximava, ele investia contra o intruso e emitia uma espécie de rosnado. O outro recuava e avançava novamente. Era um duelo engraçado! Alguns machos tinham até quatro fêmeas, esses eram os caras!

Voltamos para buscar a moto em Puerto Pirámides-RA, a 86km dali pelo terrível rípio.

No posto, tivemos que dar mais um tranco na moto. Nesse momento pensava, como seguir até o Ushuaia-RA sem partida, e no rípio. Sem chance!

Voltamos até o camping, em Puerto Madryn-RA, arrumei minhas coisas e depois iria jantar com meus  amigos. O dono do camping resolveu me ajudar e tentar descobrir o problema da moto.

Com uma certa dificuldade para acessar a caixa de fusível, já que tinha que tirar o bagageiro da moto. O senhor, um motoqueiro de mais de 30 anos, olhou o fusível e estava bom. Então pediu para ligar a moto, encostou uma chave em dois terminais e como por mágica moto deu partida, que alívio! Para complementar, ele fez a ligação de dois fios para eu pudesse dar a partida de maneira improvisada, e pronto estava animado novamente para seguir até o fim do mundo, se fosse preciso.

Tomei banho e bebi uma cerveja com o Zé e o Sérgio. Fomos para a cidade, procurar um “locutório” e um lugar para a “ceia”.

Como todos os restaurantes estavam voltados exclusivamente para a ceia de fim de ano, e a reserva era um pouco cara, tivemos muita dificuldade para encontrar algum lugar para jantar.

Por fim encontramos um bar/restaurante mexicano, que estava servindo e ficamos por ali mesmo.

Foi bem legal. Nós, brasileiros, comendo comida mexicana na Argentina em pleno Reveillon.

Voltando para o camping conheci um casal de Comodoro Rivadavia-RA, que me deu algumas dicas sobre a viagem e me desejou um feliz ano novo e boa sorte na viagem. Fui então tentar descansar.

01/01/09 – Puerto Madryn-RA – Comodoro Rivadavia-RA (Dia 07: 456km)

Mais um dia começando levantando acampamento. Não tive uma boa noite de sono, e estava muito cansado e sonolento.

Arrumada a bagagem, estreei a nova partida “fio-a-fio” da moto e segui rumo a Comodoro Rivadavia-RA, uma distância curta e poderia recuperar-me e descansar bem neste dia.

Segui pela orla da cidade e ao passar numa lombada, o bauleto caiu no meio da rua, mas sem danos (é mesmo bem resistente). Na parada fiquei ao lado de um grupo de “boyzinhos” argentinos, estilo surfistas. Conversei um pouco com dois deles enquanto ajeitava o bauleto. Algumas coisas que falavam não entendia muito bem, eles tinham um acento (sotaque) e um vocabulário muito estranhos.

Na saída não consegui dar partida na moto, por causa da chave geral desligada. Notado o pequeno detalhe, tentei novamente e de repente a moto ligou e um estouro pelo escape, foi um grande susto para nossos “hermanos” mais distraídos. Na hora, não estava muito para brincadeira, mas depois morri de rir ao lembrar da cena.

Parei no posto na saída de Puerto Madryn-RA, aproveitei para abastecer, comi um sandwich, tomei uma coca e um café. A intenção era acordar mesmo! E logo estava me sentindo melhor.

Foi uma viagem bem tranquila e com muitas paradas para fotos. Somente em Trelew-RA, foi um pouco confuso sair da cidade, mas o restante foi muito bom.

Numa breve parada em Garayalde-RA, conheci um casal de holandeses, e fui obrigado a gastar todo o inglês tinha. Os dois eram bem simpáticos e estavam vindo do Ushuaia-RA. Enquanto conversávamos chegou outro casal que eles conheceram em El Calafate-RA, e eram de Cingapura, realmente estamos num mundo pequeno. Desejamo-nos boa viagem, tirei uma foto para recordação e roda no asfalto. Nesta parada até encontrei uma tampa premiada na coca (pelo menos dizia que havia ganhado!).

Nas proximidades de Comodoro Rivadavia-RA, a estrada ganha algumas curvas e serras e a paisagem fica muito mais interessante.

Em Comodoro Rivadavia-RA, a capital argentina do petróleo, demorei um pouco, principalmente pelo novo sistema de partida da moto, mas felizmente encontrei uma simples e barata hospedagem.

A cidade foi fundada em 1901, localiza-se no Golfo San Jorge, na província de Chubut. Atualmente é a cidade mais populosa desta província com aproximadamente 130 mil habitantes.

No fim da tarde passeei pelas ruas da cidade e fiz algumas fotos, liguei para meus pais, comprei óleo para repor o nível e uma coca para terminar meu lanche na hospedagem.

Enquanto comia, conversava com uma senhora e seu filho de 13 anos (Leandro), eram de Buenos Aires-RA e estavam hospedados ali. Eram bem simpáticos e o piá era bem “gente boa” até gostava de rock.

Conversei um pouco mais e fui descansar, ou pelo menos tentar.

02/01/09 – Comodoro Rivadavia-RA – Río Gallegos-RA  (Dia 08: 775km)

Não foi uma boa noite de sono, depois da 1:00h (BR) acordava a todo o momento, principalmente pela claridade no corredor da hospedagem.

Como de costume às 6:30h/BR (5:30h/RA) comecei a me preparar. O senhor Jorge, dono da hospedagem, deu-me as últimas dicas, desejou-me boa sorte e fui rumo a Ruta 3.

Segui com destino a saída da cidade, tomei café da manhã e abasteci num posto, ainda na cidade.

A rodovia era muito bonita, contornava o Golfo de San Jorge, banhado pelo oceano Atlântico. Estava repleto de curvas, que até já tinha esquecido como eram. Uma pena o horizonte estar todo nublado, com tempo de chuva e um pouco frio, mas sem         vento. Este trecho com 70km é a maior proximidade da Ruta 3 com o mar.

A entrada em Caleta Olívia-RA, obrigou-me a pedir ajuda para poder encontrar o caminho até a rodovia novamente. Um senhor de caminhonete me “escoltou” até o trevo, e aí ficou fácil.

Em Fitz Roy-RA, mais abastecimento e um café pra esquentar. Aproveitei para colocar uma outra blusa. Lubrifiquei a corrente, conversei e mostrei algumas fotos da viagem para o frentista que estava muito curioso.

Na saída do posto a estrada não estava muito boa, estava cheio de reparos e com deformações. Logo um leve chuvisqueiro, me colocou mais atento ainda. Foram uns 100km com a constante presença de nuvens carregadas e chovendo ao lado da pista. Antes de Puerto San Julián-RA o tempo abriu, mas o vento se fez presente, e como!

Após eu mesmo completar o tanque de combustível, empurrei a moto ao lado de uma outra toda equipada. Quando fui estacionar, o pezinho voltou e a moto foi caindo, caindo e caiu, levando o piloto consigo. Na queda resvalou na outra moto, que diferente da minha nada sofreu. A Suzi ficou com o espelho todo torto e o aro do conta-giros amassou um pouco.

Ajudaram-me a levantar a moto, conversei com o outro motoqueiro e sua acompanhante, que viajavam a quatro meses desde a Colômbia. Eles ficaram um mês sem poder viajar, devido a uma queda que fraturou a clavícula do piloto. Eles me alertaram sobre o quanto terrível eram os ventos da região, principalmente no trecho até Río Gallegos-RA, e que poderiam chegar a 120km/h. Aconselharam-me enfaticamente a ficar na próxima cidade, a 120km dali (Comandante Luis Piedra Buena-RA), e continuar pela manhã do dia seguinte, já que o vento era mais fraco e o pior horário era às 15:00h (RA), justamente quando passaria pela região.

O problema todo foi que eu não tinha a menor idéia que o vento era tão forte como eles falaram, mas depois senti na pele (tirei a prova real).

Para se ter idéia, ainda no posto, era difícil caminhar contra o vento, imagine a 120km/h e na moto. Pela segunda vez na viagem (a primeira foi na Península Valdés), fiquei com vontade de desistir e voltar para casa, afinal de contas estava de férias e não num Rally como o pessoal do DAKAR.

Decidi por continuar e voltei para minha velha companheira a Ruta 3, e fui até a próxima cidade. No caminho o vento era muito forte e com muitas rajadas, eu seguia entre 100 e 120km/h, a moto balançava demais. Por isso fiquei muito tenso e atento, segurando firme a moto, mas por incrível que pudesse parecer, aquilo era só uma amostra. E até então, não era muito diferente de outras situações já vivenciadas.

Quando cheguei em Comandante Luis Piedra Buena-RA, por volta das 14:00h no horário argentino (15:00h/BR), estava bem cansado e com o ombro esquerdo bem dolorido pela condução “forçada”. Abasteci a moto, descansei um pouco e tomei um refrigerante. Avaliei as possibilidades, e decidi seguir mais devagar, a 80km/h. Deste modo percorreria tranquilamente, sem cansar muito, os quase 250km até Río Gallegos-RA. Ledo engano!

A principio as condições eram idênticas e como andava a 80 e 90km/h, o vento não “segurava” muito. Fiquei somente aproveitando a paisagem. Infelizmente tirei poucas fotos, porque quando parava o vento me desequilibrava, e era difícil segurar a moto, correndo o risco de cair com moto e tudo.

Em resumo a sequência da viagem foi um dos maiores pesadelos que já vivi em cima de uma moto. Foram os 100km mais difíceis de percorrer em toda minha vida. O vento era muito forte, e sempre oscilava a direção fazendo-me balançar com um brinquedo. Eu seguia pelo meio da minha faixa, ficava a sorte do vento e muitas vezes ficava bem inclinado para contrapor sua força.

O momento mais crítico foi quando passava pela ponte sobre o Rio Coyle, o vento “canalizado” era ainda mais forte e oscilou várias vezes, e quase me jogou na pista oposta por onde vinham outros carros, foi um susto enorme.

Sentia-me complemente a própria sorte, imaginava quando viria a rajada fatal. Eu não podia fazer nada, simplesmente andar a 80km/h. Pois se aumentasse a velocidade, a força do vento seria maior, e parar não dava, já que não havia nenhum lugar ou abrigo próximo. A alternativa foi fazer uma terrível contagem regressível (os quilômetros não passavam) e conversar com o cara lá de cima.

Incrivelmente a 30km de Río Gallegos-RA, o vento “quase” parou. A moto ficou leve, flutuava. Aumentei o ritmo, uma pequena parada do posto policial, e finalmente alcancei o destino final do dia, graças a Deus! Depois de um grande sufoco.

03/01/09 – Río Gallegos-RA – Ushuaia-RA  (Dia 09: 575km)

O dia estava muito estranho, ventando um pouco forte e o tempo todo nublado e frio, como se fosse chover. Este clima me deixou muito apreensivo. Como seria o dia? Principalmente por causa do rípio associado ao vento, que não seriam uma combinação muito boa e desejada.

Confesso que fiquei com medo em seguir viagem, principalmente pela experiência do dia anterior. Terminei de arrumar as malas, enquanto conversava com o rapaz do hotel. Passei no posto comprei uma garrafa de água e fui encarar esta loucura.

Segui pela Ruta 3, até as primeiras aduanas argentinas e chilenas, próxima uma da outra. A aduana argentina estava cheia e a chilena um pouco mais tranquila. Sem dúvida a parte mais estressante do dia, passar por quatro aduanas.

Coloquei a balaclava e outra blusa, a segunda além da jaqueta de motoqueiro, estava um pouco frio. Segui pela estrada que leva até Punta Arenas-CH e Puerto Natales-CH, alguns quilômetros a frente tomei a rodovia de acesso a travessia por balsa (transbordador) da Primera Angostura (Punta Delgada), no Estreito de Magalhães.

Esperei a hora de fazer a famosa travessia até a Isla Grande na Tierra del Fuego, enquanto isso conversava com alguns chilenos que iriam para Porvenir-CH na parte chilena da ilha.

Chegando a hora de embarcar, esperei os carros passarem e estacionei a moto na parte traseira da embarcação. Para garantir que a moto não caísse por algum balanço do mar, calcei-a com uma viga, foi improvisado mas ficou bem firme.

A travessia foi tranquila e rápida (uns 20 minutos), aproveitei para filmar e tirar várias fotos do estreito.

Na chegada, avistei um grupo com seis motoqueiros, entrei na contra-mão e fui conversar com eles. Depois de algumas palavras em espanhol, eles se entregaram, eram brasileiros de Florianópolis/SC-BR. Estavam na Terra do Fogo a alguns dias, me passaram algumas informações muito úteis, como o estado da estrada de rípio, onde havia abastecimento e a indicação de um albergue bem legal, onde fiquei toda minha estada no Ushuaia-RA. Desejamo-nos sorte e boa viagem, e seguimos.

O navegador português Fernando de Magalhães e sua nau, levou 33 dias para encontrar o caminho suave deste estreito, que leva seu nome e liga os Oceanos Atlântico e Pacífico. Evitando desse modo o perigoso contorno do Cabo de Hornos com seus ventos fortíssimos e ondas de até 15 metros de altura.

Logo após o trevo de acesso a Cerro Sobrero-CH, deparei-me com meu maior pesadelo, o rípio. Minha grande sorte foi o vento não se fazer tão presente como no dia anterior.

A principio a estrada estava muito boa, em se tratando de rípio, chegava a incríveis 60km/h. E sempre quando avistava pedras mais soltas, praticamente parava a moto, muitas vezes andava a menos de 20km/h. Neste momento da viagem não poderia arriscar em andar rápido e cair novamente, não seria muito oportuno, nada agradável e erguer a moto seria muito difícil naquele tipo de terreno.

Os maiores problemas eram nas curvas, subidas e descidas, onde a concentração de pedras soltas era maior. Já os carros passavam sem problema algum, e muitos em altas velocidades.

Foram os 130km quilômetros mais demorados de toda a viagem, gastei cerca de três horas e meia para superá-los, foi um jogo de paciência.

Passei tranquilamente pela aduana chilena, e com um pouco mais de burocracia pela aduana argentina, onde inclusive recomeçava o pavimento (que alívio). Nesta aduana existe um centro de informações turísticas, onde recebi alguns mapas e informações sobre a Terra do Fogo.

Logo na saída da aduana argentina havia um posto de combustível, mas sem nenhum atendente. Desisti de esperar e segui sem abastecer. Desde Río Gallegos-RA, já havia percorrido uns 300km e até Río Grande-RA faltavam mais 80km. Será que a moto chegaria?

Que dúvida, a GS500 é fantástica, claro que chegou!!!

Em Río Grande-RA fiz uma pausa para abastecer, fazer um lanche e descansar um pouco, já que estava bem cansado. Eram 18:00h (BR) e até o Ushuaia-RA eram mais 200km e fazer em duas horas era a meta, para ter um pouco mais de tempo para procurar um lugar para ficar.

Como dizem, “meti o pau na moto”, andava a 120 e 130km/h e quando havia uma paisagem imperdível de se fotografar. Parava, tirava rapidamente uma foto e continuava. O engraçado era sempre ultrapassar os mesmos carros.

A estrada estava boa e com apenas alguns trechos com reparos (principalmente próximo a Río Grande-RA). Era cercada uma vegetação diferente, com algumas árvores todas tortas e em alguns trechos se avistava o Oceano Atlântico ao lado.

Em Tolhuin-RA, faltando uns 100km, tive uma bela surpresa. A paisagem era espetacular, principalmente pelo Lago Fagnano com suas águas de tom azul vibrante e na sequência pela travessia da cordilheira a 450 metros sobre o nível do mar pelo passo Garibaldi, cercado por montanhas de topo nevado, florestas muito verdes, rios e lagos ao fundo, um espetáculo.

Não precisa dizer que as paradas aumentaram muito, mesmo tendo um pouco de pressa. E a viagem de duas horas passou naturalmente para três horas.

 

Quase às 21:00h (BR) da “noite”, encontrei a famosa placa: “Bienvenido al Ushuaia, la ciudad mas austral del mundo” (no Ushuaia-RA às 23:00h (BR) nesta época do ano ainda está claro). Havia chego a meu destino final. Era uma mescla de sentimentos indescritíveis, cansaço, felicidade e satisfação. Poderia  até voltar pra casa, já estava realizado!

A cidade de Ushuaia-RA fica no extremo sul da Isla Grande (Ilha Grande) da Tierra del Fuego (Terra do Fogo), é cercada a leste pelo monte Martial e a oeste  pelos montes Olivia e Cinco Hermanos e situada às margens do canal Beagle.

A Terra do Fogo é formada por todo o arquipélago ao sul da Patagônia, porém associa-se o nome a ilha maior e mais desenvolvida, a Isla Grande, sendo a maior ilha da América do Sul. A parte leste é território argentino e a oeste território chileno. O arquipélago recebeu este nome em razão das fogueiras acesas por Magalhães e sua tripulação ao cruzarem pela primeira vez o estreito que receberia seu nome.

Começou a ser explorada no fim do século XIX para criação de gado pelos navegadores europeus. Em 1869, o revendo  Stirling tornou-se o primeiro colonizador branco da Terra do Fogo, ao fundar a missão anglicana. Assumida em 1971 por Thomas Bridge, fazendo que o Ushuaia passasse a figurar nas cartas náuticas. A Argentina visando consolidar sua soberania na região, fundou uma colônia penal em 1896 (fechada em 1947). E em 12 de outubro de 1884 é instalada uma sub-prefeitura no Ushuaia, considerada a data da fundação da cidade.

Com a dificuldade habitual de um forasteiro, muitos pedidos de informações, uma recepção calorosa dos perros (cachorros) locais, inclusive com uma mordida na bota, encontrei o albergue indicado pelos motoqueiros de “Floripa”.

No albergue, quis o destino (se é que ele existe) que ficasse no quarto com outras cinco meninas, uma maravilha. Duas meninas de Buenos Aires-RA, duas do Brasil (que mal vi) e a Muriel a última a chegar. Conversamos um pouco sobre nossos planos, e na conversa descobri que ela conhecia minha cidade natal, Cornélio Procópio/PR-BR, já que era de Pirassununga/SP-BR e estudava biologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Foi a minha melhor noite, desde o começo da viagem. Tinha cumprido minha meta.

04/01/09 – Ushuaia-RA  (Dia 10: 0km)

Neste dia não viajaria, aproveitaria para conhecer a cidade, o Parque Nacional Tierra del Fuego e talvez fazer um passeio de barco.

Tomava café da manhã, quando puxei conversa em espanhol com Cristiano, e logo descobri que vinha de Salvador/BA-BR, mais um brasileiro, beleza! Conversamos sobre o modo com que cada um havia chegado até ali, ele de avião e eu de moto, o que o deixou um pouco surpreso.

Aproveitei e pedi sua ajuda para tirar a moto da “garagem”, ele até fez a partida da moto, utilizando a “ligação direta”. Achamos a situação muito engraçada e rimos um pouco. Perguntei-lhe: você nunca imaginaria fazer uma coisa desta aqui, não é?

Em meio a conversa conhecemos também Alda, outra brasileira, esta vindo de Curitiba/PR-BR, capital do meu estado.

Na recepção do albergue, nos informaram que poderíamos ir numa van de turismo até o Parque Nacional Tierra del Fuego, então fechamos um grupo 4 brasileiros (Eu, Cristiano, Alda e Muriel) e a chamamos, por ser muito conveniente e evitar pegar ônibus.

Na van conhecemos outro brasileiro, o Nelson vindo de São Paulo, capital.

Pagamos as entradas para o parque. E começamos nosso passeio quase às 10h da manhã (BR). Iniciamos pela trilha “Senda Pampa Alta” com 4,9km de extensão.

Passamos ao lado da estrada de ferro “Fin del Mundo”, e fizemos uma trilha em subida um pouco difícil, mas com uma vista panorâmica incrível do local. Tiramos muitas fotos, inclusive de muitos detalhes da vegetação, que era bem peculiar.

Nosso grupo era bem variado, havia a Alda uma professora de inglês, que adora viajar, fazer caminhadas e pratica montanhismo. O Cristiano um dentista que vive em Salvador/BA-BR, mas é natural de Vitória-ES/BR. A Muriel que estava terminando o curso de Biologia. E eu (Luiz Paulo) um motoqueiro formado em Tecnologia em Mecânica.

O Parque Nacional Tierra del Fuego ocupa uma área de 630km2 e preserva lagos, mangues e florestas de faia e tundra subantártica. Sendo a completa ausência de anfíbios em sua fauna, o que mais chama a atenção.

A caminhada se estendeu até o muelle (cais) da Enseada Zaratiegui, na Bahía Ensenada. Inclusive onde fica a unidade postal do Fin del Mundo, na qual pode-se enviar cartas e postais. Uma atração a parte e interessante.

Após um breve descanso, seguimos pela trilha “Senda Costera”, com 8 km de extensão, que contorna as Baías Ensenada e Lapataia (que fazem parte do Canal Beagle) com paisagens espetaculares, e com fotos a todo o momento.

Beagle era o nome da embarcação na qual o naturalista Charles Darwin, navegou nessas águas, em 1830, cedendo o nome ao canal.

Três horas e meia depois encontramos novamente a velha Ruta Nacional 3, fomos até o mirador Lapataia e depois ao fim da Ruta 3, um marco para um motoqueiro.

Tiramos mais algumas fotos, esperamos um pouco e tomamos a van até o albergue. Eu estava bem cansado, mas o sorriso não saía do rosto.

No albergue depois do merecido banho, pedimos duas pizzas para jantar. Enquanto aguardávamos nosso pedido, apreciávamos para relaxar a cerveja Quilmes em garrafas de litro. Um prêmio para um dia tão cansativo e aproveitado.

Acabei acatando o pedido dos meus novos amigos, e decidi ficar um dia mais no Ushuaia-RA, e a princípio não conhecer as Torres del Paines e o Glaciar Perito Moreno, uma triste escolha, mas ficaria pra próxima.

05/01/09 – Ushuaia-RA  (Dia 11: 17km)

Um dia a mais para aproveitar meu destino final. Começou bem, mas de repente o dia ensolarado, ficou nublado e frio. Terminando em chuva e neve no topo das montanhas ao redor da cidade.

Pela manhã procurei uma oficina para trocar o filtro e óleo da moto, com a dificuldade corriqueira, encontrei a Moto Pablo. Esperei a oficina abrir um pouco além das 10:00h (RA), e nada. Comecei andar pelos arredores, para tentar ver alguém dentro da oficina, até que o senhor Pablo me atendeu e combinamos o horário (15:00h/RA) para fazer a troca.

Voltei para o albergue, passando muito frio já que o tempo havia me surpreendido. Atualizei o diário enquanto esperava o pessoal voltar para irmos ao glaciar Martial. Como estavam demorando, aproveitei para ir ao centro ligar para casa, comprar uns postais e camisetas do lugar.

Rapidamente voltei e comprei umas empanadas para lanchar com o pessoal. Fizemos o lanche, fomos para sala de internet, já que estava chovendo e não se podia fazer outra coisa.

Um pouco depois das 15:00h (RA), voltei até a oficina, sob uma leve chuva. Ao entrar me surpreendi com a quantidade de troféus, a maioria de motocross e outros de kart.

O sr. Pablo era várias vezes campeão de motocross, fiquei impressionado, me falou de alguns de seus feitos e sobre seus filhos que seguem o mesmo caminho da velocidade. Até me deu algumas dicas para enfrentar o rípio.

Após a troca de óleo e filtro, veio a “facada”, o serviço ficou A$185,00. Paguei no cartão, ou seja, a troca mais cara da história da Suzi.

Voltei para o albergue, e saímos para mais uma volta pela cidade e jantamos no restaurante Barcleit de 1912, bem agradável e barato.

Depois do jantar, eu e Cristiano saímos para conhecer outros pontos da cidade. Com muito frio, voltamos para o albergue.

Infelizmente o dia não foi tão intenso (aproveitado) com o anterior, mas estava de bom tamanho.

06/01/09 – Ushuaia-RA – Río Grande-RA (Dia 12: 215km)

Acordei tranquilamente, já que a meta era chegar ao fim do dia em Río Grande-RA, um pouco mais de 200km do Ushuaia-RA.

Tomei um bom café da manhã, despedi-me dos meus novos amigos Cristiano, Muriel e Alda, e roda na estrada. Passei no posto, abasteci e comecei a enfrentar o frio. Desta vez bem preparado.

A paisagem estava muito diferente da chegada, o tempo estava todo fechado, uma pena.

Fiz uma pausa para um cafezinho em Tolhuin-RA, conversei com o frentista e segui sob ameaça constante de chuva. E faltando uns 30km para chegar em Río Grande-RA, passei por uma leve e breve chuva.

Cheguei em Río Grande-RA por volta da 13:00h (RA). Parei no mesmo posto da ida, fiz um lanche, conheci outro motoqueiro (que me deixou um adesivo de seu moto-grupo) e saí a procura de um hotel para passar a noite.

Devidamente instalado, saí para tomar um ônibus e conhecer as “Missões Selesianas”, mas como estava demorando demais. Desisti e saí caminhando pela cidade, passei no centro de informações turísticas localizado numa praça, caminhei pela orla e conheci alguns monumentos dedicados as forças armadas argentinas.

Liguei para casa, jantei num pequeno restaurante enquanto assistia a reprise do jogo Brasil e Argentina da Copa de 1990 (foi uma tortura), voltei para o hotel e fiquei assistindo televisão e descansando, pois os próximos dias prometiam.

07/01/09 – Río Grande-RA – Río Gallegos-RA (Dia 13: 366km)

O dia começou com o rapaz da recepção me pedindo para tirar a moto da cozinha (o hotel não tinha estacionamento, mas deixaram guardar a moto). Acordado, aproveitei para montar a bagagem na moto, enquanto isso conversava com o recepcionista

O cara foi bem gente boa, até serviu o café da manhã um pouco mais cedo, que me fez ganhar um tempo precioso.

Com o estômago cheio e as malas prontas, o jeito foi seguir. A temperatura estava 5º C e a sensação térmica de 0ºC, segundo a TV. Realmente estava frio, mas não mais que outros dias.

Passaram-se uns 80km até a primeira aduana argentina e com ela o terrível rípio, acrescido do fator vento.

Foram algumas situações críticas, nas quais quase caí. Numa delas, a mais “engraçada” foi numa curva em subida, eu praticamente parei a moto, mas ao tentar apoiar o pé no chão, o mesmo escorregou e quase fui com moto e tudo para o chão. A solução foi seguir bem devagar com os dois pés apoiados e deslizando nas pedras, imagine a cena. Parecia estar no gelo encima de uma moto com “rodinhas”.

Graças a Deus consegui superar os mais de 100km de rípio em pouco mais de três horas,  e sem tombos. Quando cheguei no asfalto senti um alívio muito grande, parecia uma vitória, inclusive com direito a comemoração.

Na sequência a moto deslizada suave sobre o asfalto, mesmo com o vento tentando segurar, pilotava a uns 120km/h para matar a saudade da velocidade.

Logo cheguei às margens do estreito de Magalhães. Fiquei aguardando a balsa para sair da Tierra del Fuego, enquanto falava sobre a viagem com um argentino, que foi bem enfático sobre o Glaciar Perito Moreno, me dizia que seria um pecado muito grande viajar tão longe e não conhecê-lo. A dúvida voltou a me assolar.

Na entrada da balsa, duas meninas e um menino, tiraram algumas fotos da minha pessoa. “Mire motoqueiro!”, até estava parecendo um artista.

Na balsa, conversei o tempo todo com um caminhoneiro, que inclusive por isso não consegui tirar fotos da travessia, uma pena o dia estava muito bonito.

Já no continente, estacionei a moto ao lado de outras, todas com placas européias. Entrei na lanchonete e reconheci alguns como motoqueiros. Fui ao banheiro e na porta, um cartaz me chamou a atenção, dizia que para clientes o uso do banheiro era gratuito, para não clientes uma pequena taxa e para argentinos uma taxa maior.

Na saída, um senhor italiano e motoqueiro chamado Daniele e sua esposa brasileira, vieram conversar comigo, estavam seguindo para o Ushuaia-RA e já haviam conhecido a Torres del Paines e o Glaciar Perito Moreno, e rasgaram elogios. Comentou também sobre um dos motoqueiros que estava atirado ao chão ao lado das motos, dizendo que com ele não tem tempo ruim, o cara já havia conhecido muitos lugares do mundo (inclusive a África) e já percorreu com sua moto mais de 200.000km.

É complicado, não? Quando se pensa que está fazendo alguma coisa espetacular sempre aparece alguém mais “foda” que você, é a vida! Daniele me deixou seu cartão, nos despedimos e cada um para seu lado.

Mais duas aduanas pela frente. Na argetina aproveitei para usar pela primeira vez em toda a viagem o galão reserva. Fiz a maior bagunça, por causa do vento, que espalhou gasolina para todos os lugares menos no tanque.

Cheguei em Río Gallegos-RA bem cedo. Aproveitei para abastecer a moto, fazer um lanche e seguir para o hotel. Como o quarto só estaria livre em três horas, fui para o centro da cidade. Troquei dinheiro, passeei pela orla, liguei para casa e para Rosângela e voltei para o hotel.

No hotel, a moça não me deu o mesmo desconto e atenção de dias atrás, o quarto estava sem TV, não havia toalha e muito menos café da manhã, ou seja, estava pagando mais e recebendo menos. Fiquei um pouco decepcionado, mas já havia pagado e tive que ficar.

Reencontrei o Sr. Rubens, que possui uma fábrica de cachaça no Brasil, em Minas Gerais. Ele me deu várias dicas sobre a região, e disse-me que uma de suas clientes disse que a Ruta 40 estava toda asfaltada no trajeto que poderia fazer no dia seguinte. Não acreditei muito na informação, mas iria checar. Mostrou-me também várias fotos de suas viagens.

Voltando para o quarto, notei que realmente estava perdido no espaço x tempo, como pensava que tinha apenas quatro dias de viagem para chegar ao Brasil, conhecer o Glaciar iria me atrasar. Chequei o calendário, para minha sorte descobri o equívoco em tempo, e ganhei um dia a mais de viagem. Resolvi aproveitar e ir, no dia seguinte, ao Glaciar e ver no que dava.

Fui jantar na esquina do hotel, seguindo indicação do Sr. Rubens. No restaurante era engraçado como as pessoas me olhavam, sabiam que eu não era dali e ficavam a todo o momento me observando e claro eu também os observava, principalmente a garçonete.

Río Gallegos, é a capital da província de Santa Cruz, sendo a cidade mais meridional da Argentina continental, fica a 2636km ao sul da Capital Federal, Buenos Aires. É uma cidade estratégica para o turismo na Patagônia Austral. Sua economia é vinculada a frigoríficos, sobretudo a produção de carne, lã e peles ovinas.

08/01/09 – Río Gallegos-RA – El Calafate-RA – Río Gallegos-RA (Dia 14: 772km)

Acordei bem cedo, arrumei a bagagem, fui para o posto, tomei café da manhã e às 7:00h (RA) estava seguindo pela Ruta 5 rumo a El Calafate-RA, uns 300km dali, onde é a base para se conhecer o Glaciar Perito Moreno.

A estrada estava ótima e a paisagem era bem peculiar, com pastagem e vastos campos, com ovelhas e ñandues (uma espécie de um pequeno avestruz).

Faltando uns 100km para a El Calafate-RA, encontrei numa parada (mirante) um casal de argentinos de Neuquén-RA, cada um com sua Suzuki Intruder 125. O senhor me deu algumas dicas sobre as estradas, e me alertou quanto a Ruta 40, ela é uma “estrada mortal”, e duas semanas antes um motoqueiro morreu tentando cruzá-la. Segundo ele, em alguns pontos o rípio estava muito alto, enquanto dizia gesticulava com as mãos assinalando uns 20cm de altura. E até El Chatén a Ruta 40 estava boa, a parti dali, só por Deus.

A cidade de El Calafate-RA é bem acolhedora e voltada para o turismo, nela parei para abastecer a moto e fazer um lanche. O termo Calafate é o nome de um pequeno arbusto típico do sul patagônico, seu fruto é muito apreciado na preparação de doces e segundo a lenda quem o come um dia voltará.

Num centro de informações turísticas localizado na avenida principal da cidade, obtive algumas informações e ganhei um mapa do Glaciar Perito Moreno. O nome do glaciar é uma homenagem ao explorador Francisco “Perito” Moreno, que no fim do século XIX fez vários estudos na Patagônia argentina.

O caminho para o Glaciar é incrível, a estrada segue contornando a península de Magallanes e o maravilhoso Lago Argentino, que deve ter esse nome por conta do tom azul ciano de suas águas.

Na metade do caminho está a entrada do Parque Nacional los Glaciares, cujo valor da entrada são A$60,00, e se recebe mais algumas informações sobre o parque.

Todas as paisagens eram maravilhosos e incríveis, ao fundo as montanhas iam ficando cada vez maiores, até se deparar com o Glaciar Perito Moreno ao fundo.

Num dos mirantes, conheci uma família de colombianos, e me pediram para tirar uma foto.

Exceto o último quilômetro, a estrada estava toda asfaltada. Naquele horário o estacionamento principal estava lotado, teria que deixar a moto no estacionamento secundário e seguir de van até o início das passarelas, para mim foi ótimo quanto menos estrada de chão melhor.

Tomei as passarelas e dá-lhe foto, enquanto desviava da multidão de turistas, a propósito mais de 200 mil pessoas visitam o glaciar todo o ano. O lugar é realmente incrível e grandioso, me senti como da primeira vez que vi a praia e o mar. Fiquei maravilhado, é um lugar muito diferente e incrível.

O glaciar Perito Moreno possui em sua frente aproximadamente 5km de extensão, 60m sobre o nível do lago e ocupa uma área de 257km2. Está localizado no Parque e Reserva Nacional Los Glaciares, na região sudoeste da província de Santa Cruz, Argentina. O parque que ocupa área de 724km2 é considerado pela UNESCO como patrimônio da humanidade.

O glaciar é formado pela neve que caí constantemente no topo da cordilheira, ao longo de milhares de anos a neve acumulada transforma-se em gelo devido a pressão exercida por seu próprio peso. O gelo desliza pelas encostas originando a geleira, sendo um dos únicos da América do Sul a deslocar-se.

Notei que estava sem a chave da moto, teria perdido ou deixado no contato? Como tinha uma reserva na bolsa e a partida “fio-a-fio”, me deixou um pouco mais tranquilo e consegui aproveitar o passeio.

Circulava pelas passarelas quando reconheci e cumprimentei Luisa uma das argentinas que estavam no albergue no Ushuaia-RA. Logo encontramos sua amiga Carolina e seguimos caminhando e tirando fotos.

Seguindo a orientação da Carolina, experimentei o fruto do Calafate, era um pouco maior que uma ervilha e apresentava a cor roxa. Era levemente azedo e saboroso. E se a lenda estiver certa, um dia terei que retornar para El Calafate, porque experimentei esse fruto. O detalhe é que a Carolina (vulgo “EVA”) não me alertou dessa lenda antes.

Uma característica única deste glaciar, é o espetáculo que ocorre em ciclos de 4 a 7 anos, causado pelo rompimento de uma parte da geleira que atinge a península de Magalhães e bloqueia o fluxo de água no Lago Argentino, formando um desnível de até 7 metros. A pressão da água provoca fissuras e desprendimento de blocos de gelo de várias toneladas, até liberar fluxo normal de água no lago.

Despedimos-nos e voltei para o início das passarelas, onde a van estava esperando para sair. Ocupei a última vaga, estava quase toda ocupada por brasileiros, me senti em casa. Eles vinham de Niterói/RJ-BR, vieram em grupo de carros pela Ruta 40. Conversamos um pouco e tiramos fotos. Voltei para a moto e por sorte encontrei a chave a alguns metros, realmente alguém estava me protegendo.

Voltei para cidade, abasteci, fiz mais um lanche…

… e voltei para Río Gallegos-RA.

Fui parado outra vez no mesmo posto policial em Güer Aike-RA.

Encontrei outro hotel, principalmente pelo tratamento recebido no dia anterior. Alojei-me, tomei um merecido banho, jantei no próprio hotel e fui descansar.

Realmente foi a melhor escolha, ter ido conhecer o Glaciar Perito Moreno, um dos lugares mais bonitos de toda a viagem, foi um dia com certeza ganho.

09/01/09 – Río Gallegos-RA – Comodoro Rivadavia-RA (Dia 15: 789km)

Depois do café da manhã no hotel, segui rumo a Comodoro Rivadavia-RA. Na saída, passei na frente do hotel que havia me hospedado em dias anteriores, e na entrada avisto o namorado daquela “atenciosa” atendente, eu o cumprimentei acenando a cabeça, ou seja, ela saberia que fiquei em outro hotel…legal!

Para variar parei novamente no posto policial em Güer Aike-RA. E segui contornando a estrada que outro dia passei o maior sufoco. Desta vez sem muito vento, somente um pouco frio. Fui curtindo literalmente a estrada, como parei pouco para tirar fotos, percorri sem muitas paradas.

Em Comandante Luis Piedra Buena-RA fiz a primeira parada, um senhor bem simpático de Córdoba-RA me fez as velhas perguntas e me desejou boa viagem.

Em Puerto San Julian-RA, entrei na cidade para conhecê-la, e fazer mais algumas fotos. Este lugar foi descoberto por Fernando (Fernão) de Magalhães em 1520 e onde foi realizada a primeira missa em solo argentino, em 1º de abril do mesmo ano, um domingo de ramos. Magalhães era o capitão-mor de uma esquadra de cinco naus com bandeira espanhola (San Antonio, Concepción, Trinidad (nau insígnia), Victoria y Santiago), comandava uma tripulação de 265 componentes e sua missão era fazer a primeira circunavegação pelo mundo, ou seja, encontrar uma rota do oceano Atlântico ao oceano Pacífico. Partiram de Servilla, Espanha, no dia 10 de agosto de 1519.

No dia 31/03/1520 chegaram a baía de San Julián. O capitão toma com medida preventiva em relação a um provável longo e frio inverno, a redução das porções de alimentos nas refeições. Gerando um enorme descontentamento na tripulação e  com risco de motim. Para amenizar a situação, Magalhães convidou os capitães, os oficiais e os pilotos para celebrar uma missa em terra firme e na sequência lhes oferecem um grande almoço. Ainda descontentes, alguns amotinados assumem o controle de três naus na madrugada fria do dia 02/04/1520. Porém no mesmo dia, o astuto capitão-mor reassumiu o controle de todas as naus e pune severamente os renegados.

Ficaram mais cinco meses em San Julián, e a frota partiu para completar a primeira circunavegação ao redor da Terra. No entanto ao final restaram apenas uma nau e dezoito tripulantes. Inclusive sem a presença de seu capitão-mor Fernando de Magalhães, morto em combate em 1521, nas Filipinas.

No posto na saída da cidade mais uma parada para o abastecimento e lanche. Na sequencia o vento começou a incomodar um pouco mais, e o calor veio com tudo. A estrada estava cheia de banches (remendos), que incomodou um pouco.

Em Fitz Roy-RA, notei que o pneu traseiro estava bem gasto, o que me deixou preocupado. Conversei mais um pouco com o mesmo frentista da ida (o que gostava de fotos). Tomei mais um café, enquanto duas meninas me observavam.

A estrada melhorou, o transito aumentou e a paisagem ficou bonita com a presença do Oceano Atlântico ao lado. Este trecho, na ida estava todo fechado e feio, e neste dia estava lindo.

Finalmente chegando em Comodoro Rivadavia-RA, abasteci e fui até a hospedagem que havia me ficado na ida. Depois de insistir um pouco na companhia, a senhora que conheci dias atrás me recebeu e esperei um senhor para saber o quarto que ocuparia.

Depois do banho, liguei para casa e para Rosangela, comprei um sandwich e uma coca.

Falei um pouco com meu amigo roqueiro (Leandro) e fui dormir cedo, já que o dia seguinte seria difícil, pois iria até Bahía Blanca-RA, a uns 1000km dali.

10/01/09 – Comodoro Rivadavia-RA – Bahía Blanca-RA (Dia 16: 1102km)

Levantei às 5:30h (BR), e fui fazer alguns ajustes na moto. Estiquei a corrente que estava um pouco solta, apertei os retrovisores, acertei a posição da alavanca da embreagem e lubrifiquei a corrente.

Conversei com o senhor Jorge (dono da hospedagem), sai a tempo de ver um belo nascer de sol, no Oceano Atlântico.

O início foi pura curtição, já que só me preocupei em pilotar a moto, sem muitas paradas para fotos. Seguia a 100km/h, até para economizar o pneu traseiro por estar bem gasto.

A primeira parada foi em Garayalde-RA, a intenção era abastecer e tomar o café da manhã ali mesmo, onde dias atrás havia conhecido os casais da Holanda e de Cingapura. Como a lanchonete ainda não estava servindo, apenas abasteci e segui até Puerto Madryn-RA.

Estava com um pouco de fome, com eram 12:00h (BR) aproveitei para tomar café da manhã e almoçar ao mesmo tempo. Na saída conversei com um senhor de Córdoba-RA, que estava de excursão de ônibus até o Ushuaia-RA.

Voltando a estrada, fui contornando a chuva que caía bem ao lado da Ruta 3. Ao passar pela cidade de Sierra Gorda-RA o calor estava muito forte, que me deixou preocupado com relação ao desgaste da moto.

Em San Antonio do Oeste-RA, conheci mais outros dois senhores, o primeiro era de Viedma-RA e viajava com sua família. O outro me sugeriu seguir por General Conesa-RA e Rio Colorado-RA, pois seria mais curto o trajeto até Bahía Blanca-RA.

Neste posto, o movimento era bem grande de carros para abastecimento e até cheguei a abastecer um carro para ajudar os frentistas.

Enquanto lubrificava a corrente, o capacete que estava de qualquer maneira apoiado no retrovisor, caiu e quebrou a lateral que suporta a viseira. Isso incomodou um pouco, porque dificultava o fechamento da viseira.

Segui pela Ruta 251 até General Conesa-RA, sob forte calor e agora com um pouco de vento, que combinado com a passagem dos caminhões, criava um golpe bem forte. E como o tráfico de caminhões havia aumentado e muito, chegava a incomodar. Quando apontava um caminhão no fim da reta, já me preparava abaixando na moto e esperava a pancada, era bem desagradável.

Ao passar pela cidade de General Conesa-RA, na altura do rio Negro, passei por uma leve chuva, que foi bem vinda já que refrescou o ambiente.

De repente um grande susto. Percorria a rodovia molhada, quando um caminhão passou ao lado, gerando o golpe de vento, e como passava por uma mancha lisa no asfalto, estava a 120km/h e a moto saiu de traseira, jogando de um lado para o outro por uns 200 metros, mas felizmente consegui controlar e desta vez não fui para o chão. Isso me deixou ainda mais preocupado com o pneu traseiro.

Num posto de combustível em Rio Colorado-RA (a propósito com as melhores frentistas de toda a viagem), reencontrei a família de Viedma-RA, conversamos um pouco e seguimos viagem.

Até Bahía Blanca-RA, o vento havia aumentado um pouco e as nuvens de poeira ficaram constantes.

Na entrada de Bahía Blanca-RA, a luz de indicação de pressão baixa do óleo deu alguns sinais. Mais uma coisa para me preocupar.

Na cidade procurei o hotel que havia ficado no outro dia, não foi tão fácil, pois não lembrava o nome e nem o endereço. Andei de um lado para o outro, até encontrar o McDonald’s e então ficou fácil, era só voltar um pouco pela mesma rua.

Alojei-me e fui guardar a moto no estacionamento, os funcionários me indicaram um posto de combustíveis perto dali, onde comprei quatro litros de óleo para fazer a troca.

Após tomar banho, fui até um mercado, passei numa sorveteria e fiz a maior extravagância. Comprei coca, empanadas, bolacha, cerveja e sorvete. Fazer o que, fiquei com vontade de comer tudo ao mesmo tempo. O resultado foi desperdício.

11/01/09 – Bahía Blanca-RA – Concepción del Uruguay-RA (Dia 17: 973km)

Bem cedo fui ao estacionamento. Troquei o óleo com um profissional, fiz tudo certinho, inclusive sem sujeira. Aproveitei e estiquei a corrente.

Como “estraguei” o galão do pessoal do estacionamento, para esgotar o óleo. Por consideração deixei meu “velho amigo”, o galão de 10l que usava com tanque reserva de combustível desde a viagem ao Chile.

Voltei ao hotel, tomei café da manhã e dá-lhe estrada.

No caminho para Trés Arroys-RA notei que havia perdido meu relógio, uma triste perda.

Passei por Azul-RA, fiz um lanche e segui para Cañuelas-RA. Onde num cruzamento de trem dois senhores ajudaram-me a encontrar o caminho rumo a Lujan-RA, Campaña-RA e Zarate-RA.

Em Zarate-RA mais uma pausa para abastecer e tomar algo. Voltei para a estrada, mas não foi fácil achar a saída. Tive até que bancar o “motoqueiro”, atravessei um canteiro porque não havia um retorno sequer em quilômetros.

Segui pela Ruta 12, passei pelas duas de pontes de acesso a Zarate-RA, e na 2ª entrei na província de Entre Rios. Quando fui parado por um policial trajando uma camisa amarelo-limão, bermuda e cape. Pediu-me a carta-verde, habilitação e documento da moto, como estavam certos voltou para o centro da rodovia e conversou com outro policial. Que pediu para que o acompanhasse até uma sala reservada. Pensei, lá vem problema.

Disse-me que transitava acima da velocidade permitida na ponte que era de 80km/h e tinha sido registrada por uma foto. Não tenho certeza quanto a velocidade, mas o policial estava mentindo quanto a foto. Já na abordagem deveria ter me dito que eu havia cometido a infração.

Em resumo, a multa era A$340,00 e teria que pagar para seguir viagem. Disse-lhe que não tinha dinheiro, e perguntei se não poderia deixar pra lá esta “falta”. Pediu então uma contribuição para “borrar” (apagar) a foto.

Mostrei a carteira, que tinha A$270,00, e mais uma vez falei que só tinha aquilo. Perguntou quanto poderia dar, lhe ofereci duas notas de A$20,00 e disse que era o máximo que poderia dispor já que tinha que chegar ao Brasil. Ele apoiou o dedo sobre uma das notas e me devolveu, a outra ficou na mesa. E me desejou boa viagem.

Depois desta triste situação, continuei a viagem, já bem cansado. Após Ceibas-RA entro na Ruta 14.

Em Concepción del Uruguay-RA fui muito bem atendido num centro de informações turísticas. Inclusive a atendente ligou para um hotel para verificar se havia vaga, e mostrou os pontos turísticos da cidade e onde ficava o hotel.

Fui para o hotel Virrey e fui recepcionado pelo simpático senhor Jorge. Conversamos um pouco, e me indicou um restaurante com parillada e onde havia um “locutório”.

Depois da boa parillada, voltei para o hotel, conheci o outro atendente (Angel), também bem gente boa.

E assim acabou mais um cansativo e movimentado dia.

12/01/09 – Concepción del Uruguay-RA – Cascavel/PR-BR (Dia 18: 1362km)

Às 6:00h (BR) estava partindo para o dia mais longo e cansativo de toda a  viagem. Parei no posto de combustível, e tive uma surpresa quando a atendente disse-me que para estrangeiros o preço do combustível era diferenciado (mais caro). Estranhei já que a viagem toda só ali existia isso.

Na saída da cidade, senti que a moto estava estranha, a luz do painel oscilava um pouco, principalmente em marcha lenta e na retomada de velocidade, fiquei muito receoso.

Como estava escuro, resolvi seguir para Concordia-RA e verificar numa oficina o problema e aproveitar para trocar o pneu traseiro.

Num posto antes de Concordia-RA parei, tirei todas as coisas da moto e tentei sem sucesso encontrar algo solto ou estranho. Como ainda era cedo para uma oficina estar aberta na Argentina (9:00h no mínimo), resolvi apostar na Suzi e segui rumo a Paso de los Libres-RA, a primeira fronteira com o Brasil.

No caminho fiz uma pequena pausa, num posto próximo ao trevo com as Rutas 14, 119 e 127. E ali decidi entrar no Brasil por Uruguaiana/RS-BR, mesmo sabendo que a distância seria maior e as condições das estradas brasileiras desconhecidas, porém a grande vantagem seria estar em terras tupiniquins. Já que seria mais fácil acertar as coisas se ocorresse algo e aproveitaria para trocar o pneu traseiro, que nessa altura me preocupava muito.

Neste trecho da Ruta 14, que dá acesso a Paso de los Libres-RA, existem muitas obras nas laterais da rodovia, a propósito em todas as regiões percorridas sempre havia uma ou outra obra.

Finalmente em Paso de los Libres-RA, cheguei a aduana integrada Argentina-Brasil. Que por sinal estava um caos, muita gente e várias filas.

Com um pouco de dificuldade encontrei uma caneta emprestada para preencher o formulário de saída. E fui para a fila, e justamente quando faltava uma pessoa para ser atendida à minha frente, o atendente simplesmente colocou uma placa dizendo que não estava disponível e saiu da sala sem falar nada, fiquei aborrecido, mas o que fazer?

Passei uns 20minutos sem saber o que estava acontecendo e esperando o cara voltar a atender. Estava quase desistindo e indo por Posadas-RA.

Por volta das 12:00h (BR) fui liberado e estava finalmente ingressando em solo brasileiro.

No estacionamento conversei com uma simpática senhora e sua neta e segui rumo a Uruguaina/RS-BR.

Na saída da ponte, pedi informações a um guarda, sobre as condições da estrada e como tomar a BR472, rumo a Itaqui/RS-BR e São Borja/RS-BR.

Estava muito quente, e nesta estrada completei 10.000km rodados e apenas 413km no dia. Era muito pouco para quem precisava rodar mais de 1000km no dia.

Em Itaqui/RS-BR fiz uma parada para abastecer, comer algo e finalmente trocar o pneu traseiro.

Com o pneu traseiro novinho, não tive dúvida e nem opção, “desci a lenha” na moto, seguia a 120 e 140km/h e fui pilotando pela rota das missões. Uma bela região, mas não pude apreciar muito bem.

Alcancei a cidade de Ijuí/RS-BR às 17:45h (BR), duas horas e vinte minutos depois (295km), uma boa média 126km/h.

Depois de abastecer e tomar algo, percebi o problema que estava me metendo. Havia percorrido quase 800km e ainda restavam uns 600km e já eram seis horas da tarde, ou seja, não iria escapar de viajar durante noite.

Falei com um menino, que só escutava o que dizia, com um sorriso de admiração no rosto. Esse eu acredito que ele um dia vai ter sua moto e talvez se aventure pelo mundo (fico dando mau exemplo).

Passei pelas cidades de Panambi/RS-BR, Palmeira das Missões/RS-BR e Frederico Westphalen/RS-BR e cheguei a divisa dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no princípio da noite.

Foi um trecho, para mim muito complicado, não conhecia muito bem a estrada e o meu mapa do mercosul não tinham as cidades brasileiras menores, que me obrigou a seguir o caminho “as escuras” literalmente.

Pouco mais das 21:30h (BR), cheguei em São Miguel d’Oeste/SC-BR, onde fiz uma parada para abastecer e jantar. Finalmente estava matando a saudade do nosso feijão com arroz, que maravilha.

Fiquei muito indeciso, em seguir viagem ou dormi na cidade. Escolhi a primeira opção, segurei a “faca nos dentes” e enfrentei a escuridão e a má conservação da estrada em alguns trechos, principalmente depois de Barracão/PR-BR e Pranchita/PR-BR.

Na estrada ainda aconteceu algo estranho, eu parei um pouco no acostamento para arrumar algo que me incomodava, e passou um gol “quadrado”, fiquei atrás dele e logo o ultrapassaria. Seu condutor ligou o alerta, pensei, será que ele quer tirar “racha”?. Eu fiquei na minha, ele começou a reduzir a velocidade e eu mais ainda. Ele foi para o meio da pista e ficou “sambando” na minha frente, até que um veículo em sentido oposto apareceu.

Resolvi parar a moto no acostamento e deixei ele seguir. Pensei que até poderia ser um assalto. Ele abriu uns 500 metros, voltei para a estrada, o ultrapassei e o deixei para trás, até fugir da minha visão.

Em Pranchita/PR-BR, havia um trecho horrível, praticamente sem estrada, cheio de buracos. Felizmente um pequeno trecho e por sinal o pior dos quase 11 mil km rodados.

Nestas alturas o cansaço só não era maior que a vontade de chegar em casa. Os quilômetros eram enormes e não passavam. E para aumentar o clima de aflição, seguia pilotando em direção a um temporal, com muitos raios e relâmpagos.

Quando atingi a BR277, a mesma que segue até Foz do Iguaçú/PR-BR, me senti muito aliviado e praticamente em casa.

Ao entrar na cidade de Cascavel/PR-BR, comemorei com muita vibração, agradeci o cara lá de cima e a minha “poderosa” Suzi, por ter chegado. Erguia o braço com o punho cerrado a todo o momento, e às vezes saía um grito de vibração, foi uma sensação indescritível. Havia vencido o maior de meus desafios sobre duas rodas.

Foram 10950km, em 18 dias, desses 260km de rípio, um tombo (o décimo da carreira), 1700 fotos, novos amigos, novas histórias, muita poeira, muito vento, um pouco de frio e até um glaciar.

Mais uma grande viagem, mais uma grande transformação!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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