Atacama 2008

MOTIVAÇÃO

Não sei o que leva as pessoas a saírem de sua zona de conforto, talvez para sentirem-se mais vivas. Acredito que as pessoas quando encontram algo que lhes façam felizes, elas não querem perder essa sensação. Quando estou viajando de moto, sinto o mesmo, me sinto vivo.

A motocicleta não é simplesmente um objeto, mas o símbolo “a moto”. Como descrever a sensação de passar por uma estrada nunca percorrida antes, ou ao ver a dúvida nos olhares das pessoas, quando vêem um motoqueiro com uma mochila nas costas: de onde vêm, para onde vai?

O certo é  que a cada viagem, é impossível você voltar a ser a mesma pessoa que era antes.

 

PLANO

O plano inicial era bem simples, sair no dia 01/01/08 da cidade de Cornélio Procópio, norte do estado do Paraná, Brasil, e no mesmo dia chegar a Cascavel, oeste do Paraná. Nos dias 02 a 04 de janeiro cruzar o Chaco Argentino e chegar a cidade de San Pedro de Atacama, no Chile, através no Paso de Jama.

Nos dias 05 e 06/01 ficar na cidade e conhecer suas principais atrações turísticas. No dia 07/01 seguir rumo ao norte do Chile, e alcançar a cidade de Arica, seguindo pela Ruta 05 (Panamericana), cruzando o deserto mais árido do mundo, o Atacama. No dia seguinte conhecer o Parque Nacional de Lauca, próximo a cidadezinha de Putre e voltar pela mesma Panamericana, até a cidade de Iquique.

No dia 09/01, conhecer o Parque Nacional Volcán Isluga, e seguir de Iquique até Tocopilla contornando o Oceano Pacífico. Ao fim do próximo dia retornar a San Pedro de Atacama, antes passando pela cidade de Antofagasta. E entre os dias 11 e 13/01 seria a viagem de retorno pelo Chaco Argentino.

 01/01/08 – Cornélio Procópio/PR-BR – Cascavel/PR-BR (Distância Percorrida no dia: 432 km)

Início da Viagem:

Na casa dos meus pais fizemos um churrasco, nos despedimos e fui para a estrada.

O primeiro dia de viagem foi o mais tranqüilo,  parti de Cornélio Procópio-PR até Cascavel-PR, onde vivo e trabalho. No qual os 432km percorridos  são, por mim, bem conhecidos.

Ao chegar a Cascavel, foi só fazer os últimos acertos para a viagem.

02/01/08 – Cascavel/PR-BR – Resistencia-RA (786km)

Hoje começou efetivamente a grande viagem até o famoso ”Desierto de Atacama”. O alarme às 6:00h indicou que a aventura deveria começar. Relutei um pouco para sair da cama, pois ainda estava bem escuro, mas a vida esperava por atitude. Tomei café da manhã para me preparar para o dia que me esperava. Arrumei cuidadosamente a bagagem, uma a uma fui prendendo na moto. Primeiramente o alforge, depois a barraca, anexa a esta o saco de dormir e até foi possível levar um colchão inflável, luxo que outrora não havia!!!

Moto pronta e mente ainda um pouco hesitante: que estou fazendo? Porém não se deve deixar de aproveitar nenhuma oportunidade de fazer algo diferente, viver!

Despedi-me de Dona Nair (a dona do lugar onde moro) e seu filho Mário, e um pouco antes das sete horas da manhã, estava partindo para o desconhecido, mas antes uma pequena pausa no caixa eletrônico para sacar um dos combustíveis desta odisséia, o dinheiro.

No caminho para fronteira: abasteci a moto, paguei pedágios, fiz ultrapassagens, esperei atrás de caminhões, fiz seguro verde, abasteci a moto novamente e cheguei as aduanas. Na brasileira declarei o porte dos equipamentos eletrônicos para evitar problemas na volta. Na aduana Argentina, eu tomei uma fila de automóveis destinada aos turistas. O calor mesmo pela manhã já estava forte, principalmente sob o sol. Após vários minutos meu passaporte recebeu seu primeiro carimbo, e quem diria justamente um carimbo argentino.

Logo após receber os documentos, um fiscal me parou e fez algumas perguntas e uma observação quando ao pneu. Disse-lhe que ainda estava na metade da vida útil, e me liberou sem maiores problemas. No mesmo complexo, fiz o cambio (troca de dinheiro) pela primeira vez, e na maior parte em dólares americanos e a outra em pesos argentinos. Tomei uma coca, pagas em reais já que a moça não tinha troco (cambio).

Por volta das 11:00h, estava livre e “invadindo” a Argentina, quando notei que cada vez mais o pára-lama dianteiro se soltava, já havia perdido um parafuso (tornillo) e para piorar o segundo. Indaguei-me como chegar ao Chile desse jeito, com a moto desmontando? Parei sob uma árvore, e ali estavam uns meninos argentinos, que fizeram várias perguntas sobre a moto, enquanto tentava, sem sucesso, encontrar pelo menos uma chave Allen para apertar os parafusos restantes.

Perguntei-lhes onde poderia encontrar un taller de motos (uma oficina de motos), para consertar o pára-lama e seguir viagem. Eles me indicaram duas, uma delas inclusive ficava a poucos metros dali. Pediram-me uns trocados, e acabei entregando algumas moedas.

Fui então na primeira indicação, falei com um mecânico muito gente boa e sem alguns dentes na boca, tentou resolver o problema, mas sem êxito, pois não conseguiu encontrar um parafuso adequado, me indicou então uma outra oficina que poderia consertar. Saí a busca dos parafusos perdidos, passei em dois outros lugares, e no terceiro encontrei parafusos semelhantes, e para garantir-me de qualquer outro imprevisto com o pára-lama, além dos dois parafusos que precisava pedi mais dois. O detalhe é que o “mercenário” do atendente argentino me cobrou pelos quatro parafusos o equivalente em pesos a quatro cocas de 500ml (na Argentina a coca não é de 600ml), notei isso depois, mas fazer o que?!

Resultado foi que devido ao contra tempo e a passagem pelas aduanas, estava atrasado duas horas e meia, comparado a meu planejamento.

Seguindo viagem tomei a Ruta 12 com destino a Posadas-RA, uma rodovia muita bem conservada, assim como todo o trecho percorrido neste dia. Ao longo desta estrada a seqüência de aclives e declives e o Parque Nacional do Iguazu, chamavam minha atenção. Outra coisa engraçada é a placa com os dizeres “inicio tercera trocha”, em bom português “inicio terceira faixa”.

Também neste trecho tive o primeiro contato com os temidos policiais argentinos ($$$), porém o primeiro se comportou muito bem, somente me questionou sobre os documentos, o seguro (carta verde) e se transportava maconha, obviamente respondi que não, e mesmo que se transportasse não iria dizer sim!

Posadas-RA

Depois de algumas cidades, pontes e quilômetros, fiz um pequeno pit stop em um dos inúmeros postos da Rede YPF, a  cerca 7km de Posadas-RA, com direito as famosas empanadas de “pollo” (frango) e de carne, e uma coca 500ml. Encontrei dois “fãs” de motos com as velhas perguntas, de onde vêm? Para onde vai? Está sozinho? Um deles até disse-me que da próxima vez iria junto para o Chile.

Tomei à esquerda numa rotonda (rotatória), ao invés de seguir rumo ao centro de Posadas-RA. A dez quilômetros dali, uma “surpresa” em um posto policial, um dos policiais me pediu a habilitação e na seqüência o segundo me pediu uma “contribuição” (dinheiro) para cervejinha, veja se tem cabimento uma coisa dessas, e para evitar problemas à frente acabei “doando” cinco pesos (para quem havia pagado dez pesos em quatro parafusos, cinco acabava por não ser o maior dos assaltos). Não acredito que contribui com essa vergonha, mas vamos em frente.

Seguindo retas infindáveis, cercadas por pastos, hora por plantações de árvores e em outros momentos arrozais.

Encontrei junto à rodovia na entrada para a cidade de Itatí-RA, um posto com a bandeira da Petrobrás. Pensei, até aqui, se fosse na Bolívia acharia normal. Em meio a surpresa fiquei na dúvida em abastecer ou continuar. Como o nível do combustível da moto já havia entrado na reserva, resolvi abastecer e para me surpreender ainda mais encontrei Celso, um amigo de Cascavel, são-paulino e procopense também abastecendo naquele posto. Ele e alguns de seus amigos estavam ali para pescar junto ao Rio Paraná. Este mundo é mesmo pequeno?!

Corrientes – RA

Passei por Corrientes-RA, e saí da província de Mendonza para a província do Chaco através de uma bela e imponente ponte.

Resistencia-RA

Cheguei em Resistencia-RA por volta das 20:15h, encontrei um escritório de turismo aberto, onde obtive informações sobre a cidade e a indicação do hotel Marconi para a hospedagem, simples e barata. Depois de uma certa dificuldade consegui chegar ao hotel, já que justamente a quadra do hotel estava interditada pela polícia. Descarreguei as bagagens, fiz o cadastro do hotel e guardei a moto em um estacionamento indicado pelo hotel.

Muito movimento no centro da cidade (20:30h – BR/RA). O pessoal não costuma usar capacete, e alguns policiais argentinos implicam com alguns motoqueiros (brasileiros) exigindo até dois triângulos ou extintores na moto?!

Após um bom banho, eu andei um pouco pelas ruas centrais da cidade, encontrei um telefone e liguei para casa usando a discagem direta a cobrar da Embratel (Argentina 0800-9995500 ou 0800-9995503). Depois jantei no restaurante Don Abel, o prato escolhido foi carne de chorizo acebolado, uma porção bem farta e gostosa. Na volta, treinei um pouco meu espanhol com o senhor da recepção e fui descansar já que o próximo dia prometia.

A cidade de Resistencia é a capital da província do Chaco, atualmente são quase 275mil habitantes, sendo a maioria de origem espanhola, italiana, alemã e suíça, que impulsionaram o desenvolvimento da província desde 1878.

Seu nome se dá em mérito a defesa do Coronel Avalos contra o ataque de indígenas. Resistencia é conhecida como a cidade das esculturas, onde em suas ruas e praças são exibidos mais de 450 esculturas, murais e monumentos.

03/01/08 –  Resistencia-RA – Salta-RA (851km)

O dia começou cedo, pontualmente às 06:00h, depois de uma noite mal dormida, um pouco pela ansiedade, pelo barulho do ar condicionado e da rua movimentada na frente do hotel.

Retirei a moto do estacionamento e pra variar me cobraram quinze pesos ao invés de cinco pesos informados pelo hotel, aos poucos estava me acostumando e ficando mais esperto com estes argentinos. Coloquei as malas na moto e desde cedo estava quente (abafado) e já suava muito.

Tomei um café da manhã bem magrinho (não se compara ao dos hotéis brasileiros), acertei a conta do hotel (com cartão BB) e parti rumo a Pres. Roque Saenz Peña-RA. Segui pela região do Chaco Argentino, por uma rodovia com grandes e monótonas retas, cercadas por pastos e vegetação rasteira, e alguns momentos por campos de girassóis.

Existiam em vários pontos da estrada “capelinhas” para o Gauchito Gil. Ele é uma espécie de santo, que foi assassinado injustamente, e algumas pessoas acreditam em seus milagres.

Abasteci a moto em Presidente Roque Saenz Peña-RA, tomei um gatorade, busquei mais algumas informações com o atendente e segui viagem. Antes de Pampa del Infierno-RA, deve-se tomar cuidado para não seguir pela Ruta 89 virando à direita em um trevo sem sinalização. A cor do calçamento da estrada toma um tom rosado, e aparecem muitas borboletas “kamikazes” pela frente que insistiam em chocar-se contra o capacete e a moto, sendo uma constante ao longo dessa estrada.

A estrada não estava muito boa e tinha alguns reparos que gerava oscilações, porém como diria meu amigo Falcão, “não reclama se não piora”, o que realmente acabou acontecendo chegando a Pampa de los Guanacos-RA. O asfalto simplesmente acabou e com isso uma impressão muito pessimista sobre a continuação da viagem. Quantos quilômetros vou andar com essa estrada de terra? Será que vai piorar? Para evitar maiores problemas completei o tanque, no primeiro posto que encontrei nesta cidade, para um possível aumento do consumo de combustível. Segui o trecho e logo no trevo à frente do posto o asfalto voltou, porém com muitos buracos, que exigiu muita atenção nos sessenta quilômetros seguintes.

Na seqüência a estrada melhorou e foi possível seguir sem problemas, a não ser pelo forte calor. Este trecho (trama) da rodovia era uma reta interminável, que dava a sensação de ser numa leve subida.

Monte Quemado-RA

Em Monte Quemado-RA, por volta das 13:00h, estava almoçando quando chegou outro motoqueiro, pensei este deve ser brasileiro também. Nos apresentamos, ele Luís Alberto, vinha com sua Suzuki Boulevard M800 de Lageado/RS e também estava viajando sozinho, trocamos algumas idéias sobre o plano de viagem de cada um.

Como ele iria até Machu Picchu no Peru, passando pelo Deserto de Atacama, resolvi mudar um pouco meu planejamento para ganhar um parceiro de jornada e tranqüilizar um pouco mais minha mãe, e ao invés de ir e posar em San Salvador de Jujuy-RA seguiria para Salta-RA.

Fomos então para Salta-RA, encontramos um pouco de chuva leve pelo caminho. As paradas para fotos ficou mais restrita, e em uma delas aconteceu o primeiro incidente/acidente com a minha moto (pobre Suzi). Ao estacionar a moto não posicionei o pezinho de maneira correta, quando desci da moto, ela pendeu à direita e caiu sobre o guard rail, entortando o guidão. Com a ajuda de Luís Alberto desentortamos o guidão. Não ficou 100%, mas seguimos viagem.

Salta-RA

Em Salta-RA, na entrada da cidade tiramos várias fotos, inclusive de um mirante localizado no Cerro San Bernardo com visão de praticamente toda a cidade.

Salta-RA está localizada aos pés dos cerros 20 de Febrero e San Bernardo, a uma altitude de 1187msnm (metro sobre nível do mar). Entre suas atrações turísticas se destacam as Igrejas de San Francisco e a Catedral, e um passeio de trem conhecido como Tren a las Nubes (Trem para as Nuvens), que cruza os Andes a 4220m de altura.

Com ajuda de um pouco de espanhol, encontramos o hotel que meu novo amigo tinha como referência, e onde haviam outros brasileiros hospedados, que eram seus amigos.

Após arrumar as malas e tomar um merecido banho, nós fomos ao centro da cidade para jantar (o prato era “vacío de …”) ao som e apresentação de um grupo típico argentino, e claro experimentamos a cerveja argentina Quilmes.

04/01/08 –  Salta-RA – Susques-RA (307km)

O dia começou preocupante, além da chuva, ainda deveria trocar o óleo da moto, talvez por isso não tenha novamente dormido muito bem, a partir das três horas da manhã já estava acordando a todo o momento.

Como de costume às 6:00h fui verificar o nível de óleo e lubrificar a corrente, e acabei por decidir o que faria naquele dia, principalmente em função da leve chuva que insistia em cair. Trocaria o óleo e o filtro de óleo, e seguiria viagem com objetivo de estar em Susques-RA no fim do dia e encontrar meus novos amigos, além do Luis Alberto, os casais Sidney (Mazzo) e Lilian, Reynaldo e Eliana, Klein e Beth que estavam hospedados no hotel, que eram o 1º grupo de motoqueiros que acabei conhecendo na viagem.

Voltei para cama, já que poderia dormir um pouco mais, devido ao horário de abertura do comércio local (08:30/ 9:00h).

Um pouco antes das oito da manhã, tomei café da manhã com o pessoal e acompanhei a saída deles do hotel. Às 08:30h fui caminhando comprar óleo para a moto.

Levei a moto à oficina, e enquanto trocava o óleo aproveitei para retirar minhas coisas do quarto do hotel por causa do horário de vencimento da diária (às 10h da manhã).

Por volta das 10:30h estava livre para prosseguir o trecho. Arrumei as malas e segui para a saída da cidade de Salta-RA. Seguia pelas ruas, sob uma leve chuva, e atravessando os cruzamentos confusos da cidade, aonde quem chega primeiro tem prioridade para cruzar a via.

Num desses cruzamentos encontrei dois motoqueiros brasileiros, pararam e conversamos um pouco, eles (Pé e Fernando) estavam indo para Machu Picchu e poderíamos ir juntos um trecho da viagem, porém o Pé precisava comprar uma jaqueta, então resolvi ajudar e bancar o guia turístico. Depois de algumas indas e vindas encontramos uma loja e meu novo amigo comprou uma jaqueta nova.

Cornisa

Seguindo a orientação do vendedor da loja, fomos para San Salvador de Jujuy-RA por uma estrada chamada “Cornisa” (Ruta 9), cheia de curvas e com uma natureza exuberante. Cruzando por alguns rios, formados pelo degelo e pelas águas das chuvas que escorriam das montanhas, e passando por dois diques. O que nos devolveu o prazer em pilotar uma moto, sem aquelas retas infindáveis e aborridas (chatas).

Antes de chegar à cidade San Salvador de Jujuy-RA, abastecemos as motos e o galão reserva em uma cidadezinha e aproveitamos para comer algo.

San Salvador de Jujuy-RA

Na saída de San Salvador de Jujuy-RA, encontramos os outros amigos perdidos do Pé e do Fernando. Reunimos-nos agora em seis motoqueiros, uma GS500, uma SuperTeneré 750 e quatro NX-Falcon’s e seguimos com destino a Pumamarca-RA e Susques-RA.

Todo este trecho é fabuloso, com cenários incríveis, proporcionados pelo início da Cordilheira dos Andes.

Pumamarca-RA

Em Pumamarca-RA encontramos o grupo do hotel (1º grupo), o 2º grupo que eu estava acompanhando foi à frente, tentei alcançá-los e por fim acabei me perdendo de todo mundo, e então segui só.

Pumamarca na língua aimara quer dizer “povo da terra virgem” e é uma aldeia de origem pré-hispânica de principio do século XVII , e está a 2200 metros sobre o nível do mar (msnm). Sendo uma de suas atrações, o Cerro das Sete Cores.

Após conhecer o belíssimo Cerro de la Sete Colores, comecei a subir o Cerro das 500 curvas (caracoles), também chamada Cuesta de Lipán. A subida era impressionante, e a todo o momento a vontade era parar, tirar fotos e filmar. A medida que se subia o ar se tornava mais rarefeito e frio. Uma surpresa agradável foi o comportamento da moto em grandes altitudes, superando em muito as expectativas. Apenas a marcha lenta ficou comprometida, já que o motor “morria” se parasse de acelerar. Depois meus novos amigos me relataram os problemas que tiveram com o ar rarefeito, principalmente com as Falcon’s mais antigas.

Um dos pontos altos (literalmente) era a quase 4200msnm, com uma vista incrível e a sensação do ar rarefeito estranha. Neste local após algumas fotos, reencontrei meus amigos do hotel, tiramos mais algumas fotos e seguimos juntos a partir daí.

Ao passar pela primeira vertente da cordilheira, chegamos a uma grande planície. Encontramos o Salar Salinas Grandes, um deserto de sal, muito diferente do que estamos acostumados a ver, e pisar (eu que o diga).

Seguimos por uma grande planície e subimos mais um cerro até chegar a Susques-RA, o destino final da viagem neste dia. Fui o último a chegar, o que gerou uma certa comemoração dos meus novos amigos: ”Ehhh, conseguiu chegar!”

05/01/08 –  Susques-RA – San Pedro de Atacama-CH (312km)

Ao acordar às 7:00h já observei a chuva que caía mansamente. Em outras épocas eu nem imaginava que chovia nesta região, pois são quase 4000msnm. A chuva não fez com que mudasse meu ritual, e desta vez o nível de óleo estava bom, uma ótima notícia.

Eu e meus novos amigos tomamos café da manhã, enquanto a chuva aos poucos cessava e o asfalto secava.

A primeira e única baixa do grupo foi a do casal Klein e Beth que viajavam numa GS650 da BMW (“be”, “eme”,“double v”). Resolveram desistir da viagem já que Beth era hipertensa e estava sentindo-se mal com os efeitos da altitude, uma pena!

Abastecemos as motos, já que o próximo posto era a uns 280km dali, e seguimos para San Pedro de Atacama no Chile, nossa próxima parada.

No início a moto sentiu um pouco com a altitude, sendo que as NX-Falcon sentiram ainda mais, e para ajudar alguns chuviscos e um frio incômodo que me obrigou a colocar mais blusa.

A passagem até fronteira Argentina/Chile muda pouco a pouco, e ainda contamos com a presença de llamas.

Divisa Argentina-Chile

Por volta do meio dia chegamos à aduana Argentina, baixamos a documentação. Esperei chegar mais alguns companheiros e como acreditava que a aduana Chilena estava próxima, segui para adiantar a documentação de entrada, porém a aduana Chilena era em San Pedro de Atacama-CH, então segui este trecho da viagem sozinho. O que até que por um lado foi bom, pois fiquei a vontade para parar e tirar as fotos que queria.

A região é fabulosa e muito diferente do que estou acostumado a ver, e a estrada estava perfeita.

A viagem até San Pedro de Atacama só não foi perfeita por detalhes, uma leve dor de cabeça e do frio que incomodava. Nos últimos 50km aquela geladeira foi se transformando num forno, devido a decida dos 4000 para 2400msnm de San Pedro.

San Pedro de Atacama-CH

Legalizei minha entrada no Chile e esperei os outros chegarem para irmos ao hotel reservado. Fiquei com o pessoal primeiro grupo, os outros ficaram em outro hotel.

Depois de discutir alguns passeios com o pessoal, combinamos em ir ao Gêiser El Tatio na manhã seguinte.

Resolvi ir ao Valle de La Luna, porém não entrei porque não tinha pesos chilenos, e na portaria não aceitaram dólar, fiquei um pouco frustrado, mas vou ter outra oportunidade em outro dia.

Fui ao centro da cidade de San Pedro, “cambiei” uns dólares, só para garantir, e fui conhecer outra atração Pukara de Quitor. Na ida por incrível que pareça senti uns pingos de água de um leve chuvisco e pensei: a chuva por aqui não deve ser tão rara como falam, mas depois chequei e me afirmaram que foi uma rara exceção.

Pukara de Quitor

Pukara de Quitor, é uma edificação do século XII de caráter defensivo e usada em rotas estratégicas nos tempos inca. Foi conquistada em 1450 pelos incas e tomada em 1540 pelos espanhóis.

Acabei não conhecendo Pukara de Quitor devido ao tempo do passeio e do cansaço, voltei para o hostal e entrei no quarto com a ajuda das atendentes, já que estava sem as chaves.

Durante a noite resolvi passear pela cidade e comer algo, fiquei surpreso com a falta de iluminação, onde somente havia na Rua Caracoles, e mesmo assim precariamente.

San Pedro de Atacama está localizada na segunda região do Chile, no deserto mais árido do planeta, o Deserto de Atacama. Encontra-se mais precisamente na depressão pré-antiplânica a 2438msnm. É limitada a oeste pela cordilheira de Domeyko e a leste pela cordilheira pré-antiplânica dos Andes (ou Puna de Atacama).

O termo “Atacama” é proveniente do idioma chunza “Accatchca”, que significa “Cabeçeira do mundo”. Com o passar do tempo sua pronúncia foi sofrendo alterações até chegar ao termo atual.

06/01/08 –  San Pedro de Atacama-CH (35km)

Neste dia, a rotina foi quebrada e começou completamente diferente devido ao passeio ao gêiser El Tatio, às 4:00h da manhã no horário chileno e às 5:00h no horário brasileiro. Preparamos-nos com agasalho, roupa de banho, protetor solar e labial e água.

A van chegou uns quinze minutos atrasados ao hostal, embarcamos e fomos ao gêiser por uma estrada de terra muito ruim, e como ainda estava escuro, só se podia imaginar a paisagem e ver os faróis das outras van’s.

Gêiser El Tatio

Por volta das 7:00h (CH) chegamos ao campo de gêiseres, que se localizam na cordilheira andina a 99km de San Pedro de Atacama, a uma altitude de 4320msnm. Os gêiseres são formados por fissuras na crosta terrestres, por onde o vapor de água, que atingi até 85ºC de temperatura, sai até a superfície encontrando temperaturas abaixo de zero, gerando fluxos violentos de vapor, que podem atingir até 10 metros de altura. Este campo geotérmico é formando por 40 gêiseres, 60 termas e 70 fumarolas, com extensão de 3 quilômetros quadrados.

No campo de gêiseres, era bem interessante ver a água borbulhando e sendo jorrada pra cima. Cenas estas, diferentes para os olhos de um brasileiro.

“El Tatio”, na língua dos povos nativos, significa “O homem que chora”, explica a existência dos gêiseres.

Tomamos café da manhã, com direito a ovo cozido na própria água do gêiser. Na seqüência fomos para as piscinas, onde era permitido entrar e banhar-se em uma água bem quente, o problema era sair dali depois por causa da temperatura ambiente, que era fria. Eu não me arrisquei e fiquei digamos, fotografando o ambiente.

Na volta para San Pedro encontramos, como de costume nesta região, cenários incríveis de contrastes marcantes.

Machuca-CH

Passamos por Machuca (4000msnm) um pequeno vilarejo, onde as atrações principais são uma pequena e antiga igreja e a culinária local. Onde são oferecidos aos turistas anticuchos (espetinhos) e empanadas fritas de llamas, e outras opções da comida local. Eu fui objetivo, “quero um espetinho de llama”. Na minha opinião parece carne de gado, porém com uma acidez um pouco maior que a deixa mais saborosa, ou seja, para mim a carne de llama está mais que aprovada, é muito boa.

Voltamos a San Pedro às 13:00h (CH), conheci uns jipeiros paulistas no hotel, e fui junto com eles abastecer a moto. Eles seguiram para Bolívia, e eu fui para centro da cidade comprar o passeio para o dia seguinte.

Na agência encontrei um casal de gaúchos e motoqueiros, reconheci que eram brasileiros pela camisa do Internacional de Porto Alegre que a moça usava, e eles me identificaram como brasileiro pelo manto “sagrado” são-paulino que eu usava. Conversamos um pouco e disseram que haviam chegado à cidade quatro dias antes e tinham passado por uma nevasca em Paso de Jama (que pena, eu perdi essa!). No caminho até onde a moto estava, encontrei mais um casal de brasileiros do Distrito Federal.

Fui para a estrada, tentei encontrar o Valle de la Muerte, que por sinal sem êxito. Segui um pouco mais pela rodovia que levava a Calama-CH, parei num mirante para a Cordillera de la Sal, encontrei uma família de chilenos que passeavam pela região. Voltei com sentido a San Pedro e acessei um trevo para o Valle de la Luna.

Valle de la Luna

Situa-se a 19km de San Pedro de Atacama, na Cordilheira do Sal, a 2550msnm. Suas formações rochosas, compostas principalmente por sal, gesso, cloro, boro e argila, foram sendo talhadas pelo vento e outros agentes atmosféricos durante milhões de anos. Por sua geologia única a NASA (Agência Espacial Americana) escolheu esta região para testar seus robôs antes de enviá-los a Marte.

Após pagar, com pesos chilenos, o ingresso de entrada para o Valle de la Luna, comecei visitando um local cercado de rochas.

Para variar tirei muitas fotos, além de filmar. Segui esta trilha, subi uma grande duna e voltei até a portaria para pegar a moto.

Tomei a estrada que seguia pelo vale, fiz uma pausa e escalei uma enorme duna, e por várias vezes fiquei sem fôlego e bebi muita água para vencer aquela subida. A recompensa veio quando cheguei ao alto, com uma vista panorâmica do vale, a cidade e ao fundo o vulcão Licancabur. Neste ponto havia um acesso a uma trilha na crista de outra grande duna.

Desci aquela duna por uma outra trilha, enquanto um grupo de turistas fazia o caminho inverso. Voltei para moto, e segui o caminho até as Três Marias, um conjunto de rochas que fazem menção a mulheres rezando.

Fui até o fim do vale e voltei para a cidade.

Na cidade conheci a antiga igreja, tomei um refrigerante e um sorvete na praça da cidade (um luxo em pleno deserto) e retornei ao hostal para repor as energias para o próximo dia.

07/01/08 –  San Pedro de Atacama-CH (10km)

Este foi mais um dia, só na boa (sem percorrer grandes distâncias com a moto), o destino de hoje era conhecer as Lagunas Antiplânicas com uma van de uma agência de turismo (Layana).

Às 7:30h (CH) tomei café junto com meu amigo Luis Alerto, logo chegaram os jipeiros de São Paulo, conversamos um pouco. Neste dia Luis Alberto, Sidney e Lilian, Reynaldo e Eliana continuariam a viagem, iriam para o norte do Chile com destino a Arica. Os jipeiros iriam rumo a Santiago. Como meu foco era o Deserto do Atacama, e havia planejado ficar dois dias em San Pedro, acabei ficando pra trás!

Despedi-me de meus novos amigos, desejando-lhes boa viagem e trocamos e-mail’s para manter o contato. Às 8:20h (CH) a van passou no hostal e na seqüência nos outros hotéis/hostales para buscar meus novos amigos Ricardo (palmeirense), Nacho (espanhol), Zé Carlos e Mário com suas respectivas esposas.

Salar Atacama – Laguna Chaxa

A primeira atração foi a Laguna Chaxa (2300msnm), que está a 62Km de San Pedro e fica no meio do Salar de Atacama. O salar ocupa uma planície de 100km de comprimento por 80km de largura, sendo o maior a superfície de sal do Chile e abriga várias espécies de animais, incluindo três espécies de flamingos. Um lugar formado por crostas de sal, rugosas e muito diferentes!

Seguindo o caminho, acompanhados por uma paisagem incrível e peculiar, fomos subindo dos 2400msnm para acima de 4000msnm, nesse momento eu já não sentia tanto os efeitos da altitude (exceto quando fazia movimentos bruscos). No caminho fizemos uma parada no meio da estrada, em uma descida. O guia da agência de turismo, desligou a van e a desengatou, como por mágica ela começou a voltar para trás, aparentemente era para a van ir para frente, acompanhando a descida. Ilusão de ótica?! Não sei, só sei que até agora não entendi muita coisa.

Lagos Miscanti e Miñiques

Após 110km chegamos aos Lagos Miscanti e Miñiques, que ficam a 4300msnm e cercados por vulcões e uma paisagem espetacular.

Antigamente as águas originadas do degelo dos vulcões Miscanti e Miñiques escorriam livremente até o Salar de Atacama, porém a erupção do vulcão Miñiques a um milhão de anos atrás, originou o estaqueamento das águas e os lagos.

Socaire-CH

Voltamos até o povoado de Socaire, e almoçamos enquanto discutíamos detalhes da região, os hábitos de seus habitantes e como não poderia faltar, o bom e velho futebol. Para se ter idéia da variedade cultural na mesa, havia representantes franceses, espanhóis, chinelos e claro, os brasileiros.

Em Toconao, fomos à Quebrada de Jere, onde encontramos um impressionante oásis no meio do deserto. Cheguei até a experimentar um figo, o mais doce e saboroso que já provei.

Toconao

Visitamos o centro da cidade, a praça, a igreja com sua Torre Campanário construída em 1750 e uma loja de artesanato. Eu acabei comprando uma miniatura da igreja e campanário feita de pedra vulcânica, para fazer uma média com a minha mãe, e uma Zampoña, uma flauta andina, na qual o guia da agência nos deu um show particular deste instrumento.

Retornamos a San Pedro de Atacama por volta da 18:00h (CH) e decide ainda conhecer o Valle de la Muerte.

Valle de la Muerte

Com algumas informações e uma certa dificuldade cheguei ao tal vale. Como seu próprio nome diz, não existe nada que se mova por lá, exceto a areia arrastada pelo vento e alguns meninos e meninas descendo as enormes dunas de areia com suas pranchas.

É impressionante como um lugar sem vida, pode ser tão fascinante e belo. Caminhei e tirei várias fotos do vale, e percorri uma longa trilha de areia fofa e contra a corrente de vento que jogava areia sobre mim e que insistia em tentar fazer com que eu desistisse da caminhada, mas como um bom brasileiro que não desisti nunca, continuei.

Cheguei ao alto de um paredão (mirante) com uma vista panorâmica incrível de todo o vale, da cidade e mais ao fundo o vulcão Licancabur.

Retornei ao hotel, acertei a conta e deixei as malas praticamente prontas para o dia seguinte ir para o norte do Chile, rumo a cidade de Arica-CH. Que prometia ser bem cansativa, já que era hora de enfrentar o Deserto do Atacama em sua plenitude.

08/01/08 –  San Pedro de Atacama-CH – Arica-CH (724km)

Este dia começou às 05:00h no horário local (6:00h – BR), bem cedo, porque teria que vencer mais de 700km pelo deserto.

Esta parte da viagem, eu parti só, fiz as primeiras curvas de uma estrada desconhecida quando ainda estava bem escuro e frio, chegando a Calama-CH acompanhado pelo sol. Passei pelo estádio do Cobreloa (time de futebol local) e abasteci a moto.

Na entrada para Chuchicamata-CH, em uma das minhas inúmeras paradas fotográficas, me desequilibrei e fui com a moto e tudo para o chão. Nesse momento até acho engraçado, mas na hora não teve graça nenhuma, principalmente porque não estava conseguindo erguer a moto por causa do guidão entortado, que ao receber força entortava ainda mais.

Resolvi dar uma chance para alguém fazer uma boa ação, acenei para alguns motoristas que passavam pela rodovia, até que uma caminhonete parou para me ajudar. Dois distintos senhores me ajudaram a erguer a moto mesmo assim com uma certa dificuldade, e logo estava pronto para cair novamente, sim porque, moto é feita para ficar deitada, nós motoqueiros é que insistimos em equilibrá-la.

Seguindo meu rumo, um pouco frustrado por mais um tombo, fui para a entrada da maior mina de cobre a céu aberto do mundo (só se pode visitar com agendamento prévio), voltei para estrada. Após passar várias vezes pelo mesmo lugar devido à falta de  placas de sinalização, consegui finalmente chegar a rodovia (Ruta 24) que levaria ao trevo para Tocopilla-CH e a Ruta 5 para Arica-CH, a Panamericana.

Mais uma vez por ironia do destino vejo a frente um grupo de motoqueiros e um deles levava a bandeira brasileira, e logo pensei, eu conheço esta bandeira de algum lugar. Animei-me muito em rever meus amigos do Rio Grande do Sul (Crissiumal/Entre Rios), e mais uma vez estávamos seguindo juntos a nossa empreitada. Tudo isso, porque eles ficaram em Calama-CH no dia anterior para conhecer a “maior mina de cobre do mundo.”

A estrada em geral estava boa, com alguns desvios por causa de obras de restauração, no meu caso estes desvios eram bem mais complicados por causa das características da minha moto.

O lugar era muito interessante, como um deserto sem vida poderia ser interessante, hora por geogliflos deixados por antigos povos, “oficinas” de nitrato desativadas, e hora pelo contraste do verde dos vales cortados pelo líquido mais precioso de todos, a água. Realmente uma beleza particular, e tão grandiosa que se sente minúsculo diante de todos esses contrastes.

Quillagua

Em Quillagua existe uma aduana de fiscalização onde é necessário “carimbar” o documento obtido na entrada no país. A partir desta cidade entramos na primeira região do Chile, saindo da Região de Antofagasta (2ª Região) para a Região de Tarapaca.

Oficina Victória

Fizemos uma parada para abastecer e almoçar em Oficina Victória. Na entrada do restaurante conhecemos dois alemães que estavam viajando a bordo de duas motos BMW’s (só poderia ser), eles foram de avião até o Canadá, e desceram, desceram… Quando perguntei se já haviam passado no Brasil, um deles nos disse num espanhol-inglês-alemão muito mal falado, está louco faz oito meses que estamos viajando! E continuou dizendo, em meio a nossa surpresa, que iriam até Buenos Aires e voltariam para a Alemanha. Nessa hora parei de pensar que estava fazendo uma grande aventura, pois os dois é que estavam e me superaram em muito! Mas cada um consegue o que pode ou o que sonha!

No restaurante, meus amigos gaúchos não tiveram muita dificuldade para escolher, pediram logo bife, arroz e batata, seguindo a recomendação do nosso amigo mais experiente. Como eu já havia tido a experiência do dia anterior, neste dia fui direto ao ponto. No Chile existe o chamado “Menú del Día”, que consisti de uma entrada (sopa) e o prato principal (carne e acompanhamento), na qual alguns restaurantes oferecem opções para escolha destas “etapas” da refeição. A grande vantagem é que além de ser uma opção mais barata, é  bem mais rápida. Neste dia, por exemplo, recebi o segundo prato (prato principal) junto com o pedido do pessoal.

Bem alimentados e sob sol muito quente seguimos cortando o deserto afora. Passamos por pequenas florestas de tamarugos, em alguns parques nacionais. O tamarugo é uma árvore que se adapta a um ambiente tão inóspito, por possuir uma raiz muita profunda, que lhe confere uma condição de sobrevivência a escassez de água.

Após o trevo para Iquique-CH, encontramos no meio do nada, uma tenda com muitas opções de sucos, lanches e frutas. Até comemos melancia, no meio do deserto, isso parece fictício mais é verídico.

Cuya-CH 

Outro ponto marcante desta etapa da viagem foi a chegada a cidadezinha de Cuya, onde havia a intersecção de dois vales bem profundos, a Caleta Camarones. A estrada era extremamente perigosa e cheia de curvas fortes, a sensação era acentuada pelo fator psicológico do vazio que existia ao lado da estrada que contornava a descida e a subida do vale. Para dificultar um pouco mais, muito vento lateral, porém mesmo perigoso (já que havia trechos sem guard rail) era engraçado ver os motoqueiros manejando a moto inclinada.

Chegando a cidade (Cuya), situada numa planície no fundo do vale, podíamos ver ao fundo o oceano Pacífico, meus amigos duvidaram que poderia ser, mas eu não tinha dúvidas.

Cruzamos uma ponte, fizemos uma longa curva e começamos a subir novamente. A paisagem da subida era de tirar o fôlego, nos deparamos com um vale ainda maior e no fundo uma riqueza inesperada de plantações verdes.

A rodovia seguia contornando o vale ao lado de um “barranco”, com a encosta de pelo menos uns 45º de inclinação, era muito alta, um dos meus amigos (que é melhor não citar nomes) atirou uma pedra morro abaixo, e como nos desenhos animados, a pedra demorava, demorava, demorava e não chegava ao fundo, até cruzar uma estrada no fundo do vale e atingir violentamente o solo.

Vencendo o vale a rodovia se torna monótona novamente, reta e plana. Foi quando utilizamos o meu “tanque reserva” pela primeira vez. A moto do “Vaquinha” (Evandro) estava quase sem gasolina e fizemos uma parada para suprir esta falta, na seqüência foi a vez do “Pé” quase ficar sem combustível e mais uma vez o tanque foi acionado e desta vez em definitivo, pois foi esvaziado. Alguns quilômetros a diante minha moto entrou na reserva, então pensei, só era essa que faltava, eu ajudar os outros e quando precisar não ter mais gasolina.

Arica-CH

Após descer uma serra cheia de trechos sem asfalto e perigosa devido a restauração da rodovia, chegamos a tão almejada Arica-CH. Eu pessoalmente estava muito contente, pois havia chegado praticamente ao ponto mais extremo da minha viagem.

Arica é a cidade mais ao norte do Chile, e fica a 19km da fronteira com o Peru. Foi incorporada em 1883 ao território chileno, após vitória na Guerra do Pacífico. Possui clima ameno e praias, tornando-a uma cidade muita procurada nas férias por chilenos e bolivianos. Atualmente conta com aproximadamente 190 mil habitantes.

Paramos num posto na entrada da cidade, abastecemos as motos, o tanque reserva, e os demais trocaram o óleo das motos (eu já havia trocado).

Enquanto abastecíamos um rapaz de um carro, me perguntou se eu poderia tirar (sacar) uma foto com uma moça que estava no banco de trás de seu carro. Eu achei estranho, mas concordei. Tiramos uma foto com a minha máquina e outra com a deles, porém ao tirar as fotos eu me senti, digamos, um pouco a vontade, e abracei a “chica”, e isso foi motivo de piada para os meus amigos. Que disseram que mal havia chegado na cidade e já estava arrumando confusão, foi muito engraçado.

Tudo pronto, nós saímos em busca de um hotel, e ao passar pelas ruas chamávamos muita atenção e até os cachorros (perros) corriam atrás de nós.

Cruzamos algumas ruas e nos deparamos com o tão esperado oceano Pacífico a nossa frente, seguimos contornando, até não resistirmos mais e irmos até suas águas, e não precisava nem mencionar que tiramos muitas fotos. Eu resisti menos ainda e fui sentir a água com minhas próprias mãos, sem comentários!

Paramos um pouco mais à frente, ao lado do “morro” e decidimos ir até lá. Pediram-me para conversar (por causa do meu portuñol) com as duas moças que estavam sentadas a beira da praia e acompanhadas de duas crianças, a propósito uma delas era uma loira (rubia) linda.

Papo vai, papo vem, perguntaram (só para confirmar) de onde éramos e nos disseram como poderíamos chegar até o “Morro do Cristo”.

Seguimos contornando o morro e chamando a atenção, ainda mais pela buzina da moto do Vaquinha. Esta sensação foi muito legal, era mais ou menos como desfilar em carro aberto depois de uma grande conquista.

Bem um motoqueiro e sua moto despertam nas pessoas curiosidade, elas se perguntam de onde vêm, para onde vai. É uma espécie de símbolo que pode até mudar a vida de uma pessoa. Por exemplo imagine um garotinho vendo um motoqueiro passando a sua frente, no futuro ele pode se inspirar e desejar fazer o mesmo, o que abre um universo de possibilidades, porque eles (motoqueiros) podem e eu não?!

Voltando a outra viagem, em nossa busca pelo “Morro do Cristo”, paramos num outro mirador (aos pés de outra imagem), tiramos algumas fotos e seguimos para o ponto mais alto com as imagens do Cristo e do por do sol no Pacífico.

Ao chegar, que visão impressionante, o sol um pouco camuflado pelas nuvens, fazendo um trilho, de tom laranjado, sobre o oceano até nossa direção. E muitas aves marinhas planando livremente pelo horizonte, mais uma visão única e inesquecível.

Em meio a esta cena cinematográfica, que os seis motoqueiros acompanhavam, outra vez o destino nos reservou outra surpresa. O casal de Curitiba, Reynaldo e Eliana, depois de dois dias nos encontraram novamente, foi muito legal!

Eles nos indicaram uns hostales, e sugeriram que fossemos juntos até o hostal que estavam hospedados, para verificar possíveis vagas, mas antes passariam pela Igreja  de San Marcos em frente a Plaza Colón.

Sem maiores problemas, encontramos a igreja. Uma construção no estilo gótico, datada de 1876, com sua estrutura interna metálica, pré-fabricada na França e projetada por Gutave Eiffel

Conhecemos uma brasileira que vive na Argentina com sotaque do português de Portugal (era muito cômico ouvi-la) e seu primo inglês que estudava nos Estados Unidos.

Chegamos ao hostal, e como havia somente uma vaga, resolvi fica ali mesmo, junto com meus outros amigos. Meus amigos desse dia de viagem ficaram em outro hostal na mesma rua.

Tomei um banho rápido e fui junto com Eliana e Reynaldo ao centro da cidade, mais precisamente à Rua 21 de Mayo. Passamos em um Cybercafé e fomos num barzinho bem badalado. Pedi um pisco sour e uma porção de uma espécie de tacos, acabara de entrar no clima latino de vez!

Enquanto isso chegaram os outros amigos motoqueiros, e ficamos ali algumas horas agradáveis e memoráveis tomando chopp Cristal e jogando conversa fora.

Voltamos para o hostal por volta da 1:00h (CH), reencontrei os amigos Luis Alberto, Mazzo e Lilian, batemos um papo, ao som de um jovem roqueiro que ensaiava seus acordes num violão. E assim findou-se mais um grande dia.

09/01/08 –  Arica-CH – Putre-CH (173km)

Não estava a fim de começar este dia sem café da manhã e sem me despedir dos meus amigos, comecei então a rotina um pouco mais tarde as 7:00h (CH).

Verifiquei o nível de óleo e estava com problema (baixo), e nem ao menos chegava no mínimo. Acertei este detalhezinho, lubrifiquei a corrente e notei que estava bem frouxa. O que me causaria problemas na seqüência da viagem, sendo melhor procurar uma oficina para esticar a corrente antes de subir a serra.

Tomei o café da manhã. Despedi-me novamente dos meus amigos, já que desta vez seria muito difícil reencontrá-los em solo chileno. Conheci o sr. Adolfo que me sugeriu um plano para minimizar os efeitos da altitude. Parar nos primeiros 50km, tomar bastante água, por volta quilômetro 100 tomar um mate de coca na casa de um casal conhecido dele. Recebi seu cartão de visitas e até um elogio pelo meu portunõl (queria que a “maestra de español” Patrícia ouvisse essa…rs!).

Na saída recebi com grande satisfação um presente do Reynaldo, uma camiseta da viagem que eles estavam fazendo a Machu Picchu.

Saí em busca de “un taller de motos”, e com algumas informações (uma inclusive cobrada) encontrei uma oficina atrás de um cemitério que mais parecia um ferro velho, mas como era somente para esticar a corrente não vi maiores problemas.

Enquanto esperava ser atendido pelo mecânico da oficina, fiquei conversando com um senhor que ali chegou.

O mecânico começou a trazer ferramentas estranhas para se esticar a corrente, como um martelo e um alicate. Fiquei observando um pouco para ver até onde ele iria. Quando começaria a golpear a corrente para retirar os gomos, pedi que parasse e que simplesmente esticasse a corrente. Ele me atendeu, porém com aquele ar de que o senhor quer assim, mas isto não é o melhor para a moto.  Aproveitou e criticou a graxa branca que estava usando na corrente desde o Brasil e me aconselhou a usar somente óleo, o que ele até gostaria de fazer, mas também não permiti. E segui meu rumo com algumas dicas que o mecânico me dera.

Depois de alguns semáforos e duas rotatórias (rotondas) tomei a rodovia (Ruta 11) com destino a Putre e ao Parque Nacional de Lauca. O trecho inicial era muito interessante com vales verdes cercados por altas montanhas e rios os cruzando.

Aos poucos, com a subida, a paisagem foi mudando para ambientes extremamente secos. Levemente senti uma dor de cabeça por causa do efeito da altitude, porém fui me cuidando tomando muita água, e fazendo algumas pequenas paradas. Estes efeitos poderiam ser maiores, mas o organismo já estava mais adaptado a altitude, pelas situações que já havia passado nesta viagem.

Esta estrada (Ruta 11) é uma das vias de acesso a Bolívia, cruzei com muitos caminhões e fui sempre cumprimentando os caminhoneiros (de repente poderia precisar da ajuda de um deles). Percorridos uns 60km desta rodovia, a estrada ficou um pouco ruim, mas isso durou apenas uns 10km. Ao lado a paisagem era espetacular, se viam altas serras e montanhas com muitos cactos candelabros espalhados e ao fundo uma névoa, que dava a impressão de se estar viajando nas nuvens.

No quilômetro 100 encontrei uma mescla de casa e restaurante. Parei a moto, e as crianças que estavam na varanda correram para dentro. Entrei no local com um certo receio, e logo fui atendido pela Sra. Andrea, lhe pedi “un mate de coca” e começamos a conversar, perguntei se conhecia o sr. Adolfo, porém a principio não se lembrou, pelas poucas informações de que tinha dele.

Tomava meu mate de coca numa cuia tipo de terere, só que quente. Quando chegaram ali dois homens, e tomaram a atenção da senhora que me explicava sobre a região. Logo seu esposo, Sr. Alexis, chegou da cidade, o conheci, conversamos um pouco sobre o Chile, o Brasil, as pessoas que os visitam e as riquezas da natureza. Despediu-se e saiu com os outros dois homens.

Sra. Andrea me explicou as dificuldades do local, o tal inverno boliviano (invierno boliviano ou antiplânico), e disse-me que o melhor horário para visitar a região nesta época era bem cedo, e justamente no horário que chegaria ao parque (14:00h – CH) era a pior hora, onde ocorriam as tormentas com chuvas de granizo. Indicou-me alguns lugares para ficar acampado caso precisasse, porém as melhores opções eram os hostales em Putre-CH (3500msnm).

Resolvi continuar minha empreitada, mesmo sabendo dos riscos e a cada quilômetro torcia para que melhorassem todas as condições, porém quanto mais seguia adiante tudo piorava, frio, risco de chuva, e o pior de tudo era a névoa que não deixava atingir meu principal objetivo, que era conhecer a paisagem. Pensei, era melhor abandonar já não estava aproveitando nada.

A estrada estava molhada e tinha muitas curvas fechadas, além de  uma neblina muito densa. Apostei que mais adiante poderia melhorar, passei pela entrada da cidade de Putre-CH, segui em frente. Pensei num detalhe que me fez mudar de idéia, pois se eu insistisse em chegar ao lago, poderia não ver nada e ter que voltar e posar em Putre-CH, para então no outro dia tentar conhecê-lo, mas o combustível provavelmente seria insuficiente para ir e voltar outra vez. Para ajudar o conta-giros da moto parou de funcionar. Então sob muita neblina, resolvi retornar a cidade que já estava a 15km dali, almoçar, ficar ali mesmo e aguardar dias melhores.

Cheguei na cidade e mal se viam as coisas à frente, encontrei um restaurante citado no guia Rough Guide, e entrei. Deparei-me com um ambiente muito legal e uma decoração rica em detalhes.

Almocei o famoso “menú del día”, uma deliciosa sopa e como prato principal arroz, carne e tomate, faltando somente o feijão e as batatas fritas para ser uma refeição perfeita. Tirei mais algumas informações de uma senhora que ali almoçava.

Enquanto estava saboreando a sobremesa, conheci e conversei com um senhor chamado Nibaldo da cidade de Antofagasta-CH, que estava passeando com sua esposa, filha e sobrinho. Foi uma conversa bem agradável, e foram muito gentis e até me deram o número do telefone de sua casa para caso quisesse visitá-los. Tiramos algumas fotos, e desse jeito estava me sentindo uma celebridade no Chile.

Acabada aquela reunião, precisa encontrar um lugar para ficar. Seguindo a indicação da Sra. Andrea, procurei o hostal Pachamama (que significa Mãe-Terra), e depois várias informações desencontradas e algum tempo sob chuva encontrei o tal lugar. Esperei um pouco mais até que o pessoal da recepção retornasse, enquanto isso tentava falar inglês, espanhol e português ao mesmo tempo com dois outros casais de turistas.

Quando retornaram disseram-se que não haviam vagas, e me indicaram outros lugares, porém quando estava saindo a atendente me chamou e disse que poderia ficar e dividir o quarto com um senhor dono do hostal. Disse-lhe que não havia problema e por ali fiquei. Neste momento já eram 15:00h (CH).

Aproveitei para navegar na internet, me atualizar um pouco sobre o que estava acontecendo no mundo e enviar e-mail para os amigos da empresa. Como choveu durante o restante da tarde e no início da noite, não saí para conhecer nada, além do que, estava muito frio.

Pensei: eta mundão de meu Deus, eu saí do forno para entrar na geladeira. Quem diria, no dia anterior a meia-noite estava tomando chopp de bermuda e a camisa tricolor e neste dia estava debaixo da coberta com o maior frio (e direito a aquecedor ligado).

Na manhã seguinte esperava encontrar um dia maravilhoso e tentar conhecer esta região como ela merece.

10/01/08 –  Putre-CH – Iquique-CH (583km)

Infelizmente não amanheceu como gostaria e estava com muita neblina. Imagine a decepção, mas já que estava ali aproveitei para caminhar um pouco pela cidadezinha e fotografar o centro de Putre-CH e a igreja do século XVII (que foi construída após a anterior, feita de ouro, ser tomada pelos espanhóis).

Retornei ao hostal, tomei o café da manhã, e uma dúvida cruel me assolou. Enfrentar a neblina e tentar conhecer o Lago (ou pelo menos tocar nele) ou partir logo para Arica-CH e Iquique-CH.

Resolvi enfrentar, mesmo sabendo dos grandes riscos, que é andar numa estrada desconhecida, sob neblina, asfalto molhado e ter que desviar das quedas de barreiras.

Depois de percorrer alguns quilômetros nestas condições e vencer o medo e a vontade de retorno, a neblina foi ficando menos densa, mas com o céu muito nublado.

Lago Chungará

Após percorrer uns 45km encontrei finalmente o tão aguardado Lago Chungará a 4600metros de altitude, e posso dizer que valeu a pena, o tempo poderia estar melhor, mas seria ingrato se reclamasse.

Segui um pouco adiante e parei em outro ponto as margens do Lago Chungará, em frente a um pequeno refúgio da CONAF (onde é possível acampar).

Voltava para Arica-CH, quando usei pela primeira vez o galão reserva. O detalhe quanto ao combustível que havia pensado no dia anterior fez a diferença!

Parei no quilômetro 100, para pagar o mate de coca do dia anterior e aproveitar para tomar outro. Fiquei ali um pouco mais, conversei com a Sra. Andrea e o Sr. Alexis e continuei a viagem.

Chegando em Arica-CH, pela mesma estrada da ida, tratei de abastecer a moto e o galão reserva. Parei a moto à frente da bomba de combustível, quando ocorreu mais um imprevisto, ao sair da moto, ela caiu sobre mim, derrubando moto e piloto. Não acreditei, mais um fiasco. O mais frustrante ainda foi ter quebrado a ponta do manete de freio (que a propósito, é  projetado para qualquer coisa quebrar). Aproveitei pra fazer um lanche no posto mesmo.

Na saída de Arica-CH, enfrentei ventos carregados areia, creio que deu para ter noção do que deve ser uma tempestade de areia, e com certeza não quero tirar a prova real.

Como a estrada já era conhecida, não houve muitas surpresas, apenas novos ângulos que deixava a viagem interessante também.

Caleta Camarones

Passando novamente pela Caleta Camarones, onde se não é o lugar que o vento faz a curva, ele passa por ali, pois assim como na ida, fazia muito vento, me obrigando a andar com a moto inclinada. Não precisa nem dizer o perigo, principalmente ao cruzar com outros veículos.

No fundo do vale, depois da cidade de Cuya-CH existe uma estrada de chão de 11km que chega até uma praia, muito legal e banhada pelo oceano Pacífico. Conheci ali um militar aposentado, sr. German, que me deu várias dicas sobre o Chile e até uma fruta Nectarina. Neste lugar comprovei o que havia dito aos meus amigos motoqueiros, que ali era a nossa primeira vista do oceano Pacífico.

Iquique-CH

Na entrada da cidade Iquique-CH, abasteci a moto, e segui para o centro da cidade. Na chegada se têm uma vista panorâmica da cidade, que por sinal é muito bacana.

A cidade esta localizada aos pés da grande Cordilheira Litorânea de 800metros de altitude. A principal atividade econômica da cidade passou a ser a pesca, após o fim do ciclo do nitrato. Outro motivo para visitar a cidade é a “Zofri” (Zona Franca), com produtos isentos de taxas de importação.

Tratei de achar um hotel, e mal me instalei fui direto para praia acompanhar o belíssimo por do sol do Pacífico (sem comentários).

No fim do espetáculo, caminhei pelo centro da cidade e voltei para hotel para jantar e descansar.

11/01/08 –  Iquique-CH – San Pedro de Atacama-CH (941km)

Estava tomando o café da manhã, quando uma senhora entrou na cozinha, e me desejou “Bom dia”, em bom português, eu lhe disse: “Como é bom ouvir português!”, e ela sorriu. Ela estava viajando pelo Chile com o marido e outros amigos de Curitiba.

Como também iriam rumo a Antofagasta-CH informei-lhes que a estrada que contornava o oceano Pacífico estava parcialmente interditada até Tocopilla-CH por causa de um terremoto que ocorreu em novembro do ano passado, danificou um túnel próximo a cidade, e somente era permitido circular das 7:00h as 8:00h e 19:00h as 20:00h, devido às reformas.

O que me atrapalhou também e tive que alterar mais uma vez meus planos. E voltar pela mesma Panamericana até o trevo para Tocopilla-CH.

Após um pouco de confusão consegui sair da cidade.

Tocopilla-CH

Nos cruzamentos de linha férrea, a parada é obrigatória. O veículo deve parar completamente e o motorista olhar para os dois lados, caso contrário: multa.

Oceano Pacífico ao fundo, meu novo companheiro de viagem.

Para um brasileiro é engraçado seguir para o sul, e ver o oceano no lado direito.

La Portada

La Portada foi transformado em monumento nacional em 1990, e é atração imperdível na região.

Antofagasta-CH

Em Antofagasta-CH aproveitei para trocar dólares por pesos chilenos, e conhecer um pouco o centro da cidade, que por sinal bem movimentado.

Cheguei em San Pedro de Atacama-CH, já escuro, por volta das 22:00h (CH), fui para o mesmo hostal que havia ficado dias atrás e havia feito reserva.

12/01/08 –  San Pedro de Atacama-CH – San Salvador  de Jujuy-RA (488km)

Pela manhã, acordei e fui fazer o check up na moto e encontrei um oásis bem à frente do quarto onde estava.

Tomei meu bom café da manhã, arrumei o restante das malas e fui para a moto. Conheci uma austríaca, que esperava para fazer o passeio até as Lagunas Antiplânicas. Ela viajava sozinha com sua amiga, e falava muito bem espanhol, ou pelo menos o suficiente para nos entendermos muito bem.

Moto pronta e preparada, eu passei na “bencinera” para gastar meus últimos pesos chilenos abastecendo a moto, mas os 7300 pesos não foram suficientes para encher o tanque. O que me obrigaria, provavelmente, a utilizar o tanque reserva.

Segui meu rumo, fui até a aduana para baixar minha documentação e sair do Chile. Após algum tempo esperando nas filas, por causa dos inúmeros turistas, finalmente estava na estrada para minha casa. Uns 50km dali a moto falhou um pouco, o que me surpreendeu, mudei a torneira do tanque para a posição de reserva, e por coincidência a moto não falhou mais. Pensei que o nível de combustível já havia ter atingido a reserva. E segui preocupado com o consumo, já que estava teoricamente estava gastando muito.

Segui pela estrada contemplando aquela paisagem que já havia visto, porém de outro ângulo, e aproveitando para sentir o prazer de dominar a moto nas várias e desafiadoras curvas da região.

Resolvi fazer um teste, e voltar a torneira do tanque para a posição normal, e como a moto não falhou, fiquei aliviado e segui em frente.

Por volta da 13:00h (BR), cheguei na aduana Argentina e entrei novamente no país portenho!

Uns 15km depois da aduana, a moto “bateu” reserva e agora era pra valer. Ajustei a torneira e segui viagem, me propus um desafio “levar” a moto o mais próximo possível de Susques-RA (onde havia um posto de gasolina), só pra ver quantos quilômetros teria que empurrar. Não era uma tarefa muita fácil, pois da aduana até a cidade era 120km, como já havia andado uns 15km, sobravam 105km para fazer com os 4 litros de reserva da GS500.

Fui pilotando fazendo com que a moto andasse entre e 100 e 110km/h, e por incrível que pareça, mesmo naquela altitude (4000msnm) a moto conseguiu chegar ao posto. Havia somente uma lâmina de combustível no fundo tanque, mas havia.

Eram quase 14:30h (BR), quando estacionei minha valorosa Suzi-Uki, em frente ao mesmo restaurante/hostal da ida, para fazer uma pausa e um lanche.

Neste clima fui cruzando os Andes…

Um pouco depois do Salar Salinas Grandes, encontrei um motoqueiro parado no acostamento, que acenou. Eu parei para ver o que havia acontecido, então me perguntou se tinha um pouco de “nafta” para lhe dar. Eu acabei ajudando com um pouco de gasolina. Na seqüência achei algo estranho, ele ainda continuou parado depois de receber o que precisava (será que estava esperando mais alguma doação?)

Após descer a Cuesta de Lipán (caracoles), parei para conversar com um outro motoqueiro e sua namorada, que me perguntou sobre as condições da estrada. Conversamos um pouco e segui viagem.

A cidadezinha de Pumamarca-RA estava muito movimentada. Um policial me informou que havia uma festa na cidade. Até fiquei com vontade de ficar um pouco mais, mas deveria seguir viagem.

Alguns quilômetros antes de San Salvador de Jujuy-RA, o tempo começou a fechar. Parei sob uma ponte e guardei a câmera.

Abasteci logo na chegada a San Salvador de Jujuy-RA, por volta das 18:00h (Br), e no posto um argentino se ofereceu para me guiar até o trevo para General Guemes-RA, ele foi à frente de camioneta. Andamos uns 2km, ele ultrapassou um automóvel e fui na seqüência. Quando terminei a ultrapassagem, estava próximo da camioneta. De repente entre os eixos da camioneta uma pedra, minha única reação foi segurar bem firme o guidão.

Eu simplesmente decolei sobre a “rocha”,  e quando “aterrissei” tentei parar a moto, mas não consegui principalmente por causa da corrente escapada. E aos poucos fui parando a moto, e ouvindo um barulho intermitente na roda dianteira. Fui pro acostamento, e cai num terreno gramado no lado da pista dupla.

A moto caiu sobre minha perna e torceu um pouco. Na hora pensei que havia quebrado. Com uma certa dificuldade, levantei e firmei a perna no chão, girei um pouco e percebi que não era nada grave, graças a Deus. E pela primeira vez, após um tombo, eu olhei primeiro para mim e não pra a moto.

Com apenas o joelho dolorido, fui ver o estrago na moto. A roda dianteira estava aberta, e quando girava pegava no caliper no freio (por isso o barulho). Fora os riscos extras na moto. Logo pensei “estou ferrado”, “o que vou fazer?”.

Não se passaram cinco minutos, o corpo de bombeiros, a ambulância e a polícia chegaram para me socorrer. Nossos “hermanos” me surpreenderam. Queriam de qualquer forma, me levar ao hospital, porém não achei necessário. Fizeram o boletim da ocorrência e pediram para assinar uma declaração que não queria ser atendido. E foram embora, ficando só os policiais e um vizinho do local do acidente.

Quando chegou “o mais gente boa” dos argentinos, um motoqueiro (sem capacete), chamado de Yoki. Perguntou o que havia acontecido e ofereceu ajuda, me disse que se quisesse poderia deixar a moto em sua casa (morava em frente ao acidente) e até posar lá. E no outro dia (domingo), tentaríamos achar uma borracharia ou uma oficina para arrumar a roda da moto.

Como estava “perdido” e não tinha muitas opções, resolvi aceitar seu convite. Enquanto ele foi guardar sua moto, eu conversei com os policiais. Perguntei sobre meu novo amigo, eles foram taxativos, dizendo que eu não poderia ter encontrado pessoa melhor para me ajudar. Yoki era uma espécie de vereador ou sub-prefeito de Palpalá-RA (um distrito de Jujuy). O que me deixou tranqüilo.

Ele retornou carregando algumas ferramentas e retiramos o caliper do freio para liberar a roda. Fui conduzindo a moto, atravessando a rodovia e os policiais bloqueando o trânsito. Desmontamos a roda e verificamos o estrago.

Liguei para casa para avisar meus pais que a viagem iria demorar um pouco mais. Como minha mãe atendeu, disse-lhe apenas que a moto havia estragado, porém sem maiores detalhes.

Como Yoki teria que fazer um trabalho ainda naquela noite, resolvi ir junto com ele. Tomamos um ônibus até a cidadezinha de Pericó-RA. Um de seus amigos nos encontrou e fomos de van até a frente de uma boate “New Loucura”. Eu ajudei-lhes, com uma certa dificuldade por causa do joelho que doía um pouco, a montar o som e um telão no teto da van.

Uma idéia bem original, e chamava muita atenção do pessoal que passava pela rua. Eu estava achando tudo aquilo uma loucura, e dizia-lhes que eu nunca imaginaria estar naquela noite naquele lugar e tampouco num carro de propaganda. Esta vida é muito doida mesmo!

Depois de “trabalhar” um pouco, voltamos de carona até a casa do Yoki. Fomos ainda num bar, bater um papo (chalar) e tomar uma Budweiser de litro.

13/01/08 –  San Salvador  de Jujuy-RA (0km)

Na manhã seguinte, acordei com o joelho ainda doendo. Levamos a roda numa “gomeria” (borracharia) para tentar fazer algo. O borracheiro apenas retirou o pneu da roda e disse que seria necessário levar até uma tornearia, para esquentar e endireitar a roda sem danificá-la.

Passamos numa “carniceria” (açougue), e pra variar Yoki não quis que ajudasse a pagar a conta.

Fomos na casa “dos bons vizinhos”, uma família muita amiga da família do Yoki. O Sr. Ribas nos preparou uma autêntica “parrillada”.

14/01/08 –  San Salvador  de Jujuy-RA (42km)

Levantamos cedo e fomos procurar uma tornearia para “arreglar” (arrumar) a roda moto. Encomendamos o serviço numa oficina, e a princípio a roda ficaria pronta até o meio-dia. Fomos para cidade, cambiar um pouco de dólares e comprar óleo e uma câmara de ar para garantir a viagem de volta.

Fomos ao escritório do Yoki, para ele resolver uns assuntos, passamos na oficina, mas o serviço não tinha sido terminado.

Almoçamos as deliciosas empanadas, preparadas pela esposa (Marcela) do Yoki.

Voltamos a tornearia, para buscar a roda arrumada e levar a uma borracharia. Não ficou 100%, mas já estava ótimo para continuar a viagem. O borracheiro teve dificuldades para fazer o pneu se encaixar na roda, mas o fez.

A roda ficou pronta por volta das 17:00h (BR), ficando um pouco tarde para seguir viagem naquele dia.

Passamos numa bicicletaria onde trabalha um de seus amigos. Conheci alguns admiradores do futebol brasileiro, um deles inclusive me disse que não acreditava que eu estava usando a camisa do São Paulo no país dele. O que iria fazer, só dei risada e brinquei um pouco com a situação.

Voltamos para a casa do Yoki, montamos a roda e fizemos um test drive na  moto. Sem problemas, a moto estava pronta para seguir viagem no próximo dia.

A noite saímos, agora com a Suzi, fomos até o escritório dele, onde  são ofertados cursos profissionalizantes, inclusive um para manutenção de motos e outro de culinária.

A secretária do lugar me “intimou” a dar uma volta de moto com ela, prontamente atendi seu pedido. Circulamos pelas ruas de Palpalá-RA guiado por ela, já que eu estava perdido naquele lugar.

Encomendamos uma pizza, e voltamos para casa (neste ponto já estava me sentindo de casa).

Chegou um amigo do Yoki, senão me engano chamado Alberto, com sua filha. Pediu-me para ver as fotos e me fez várias perguntas sobre a viagem, e acabou fazendo até uma piada sobre o tombo, dizendo que eu havia tirado muitas fotos de toda a viagem, e quando tentei fotografar a pedra no caminho, caí.

15/01/08 –  San Salvador  de Jujuy-RA – Posadas-RA (1171km)

Moto preparada, era hora de voltar para casa.

A princípio você se acha muito azarado por encontrar uma pedra no meio de uma ótima pista dupla, já havia desviado de muitos outros buracos e pedras na viagem toda, mas depois com o sangue esfriando (e a perna doendo mais), você começa a refletir e agradecer, porque poderia ter sido muito pior.

Além de tudo isso fazer novos amigos e saber que existem pessoas boas neste mundo (até os argentinos…rs!). E como disse o próprio Yoki: “não há mal, que seja todo mau”. Posso até considerar que um tombo pode ser visto como uma dádiva, dependendo de como se analisam esses acontecimentos. No meu caso, meu novo amigo Yoki foi muito camarada e aí de alguém, se falarem mal dos argentinos… Compra briga! Caso alguém esteja planejando viajar por esta região, é recomendado anotar o seguinte endereço e telefone do Yoki (Vitor Hugo Sosa):

Direción:     Calle(Rua): Coritti, n.º 1038 /  Bairro: Ejercito Argentino  / Palpalá Jujuy

Teléfono:     +54 (388) 4274532

Definitivamente os detalhes fazem a diferença. Imagine a seguinte situação, você para num posto de gasolina numa cidadezinha no meio do Chaco Argentino, que é a região mais pobre do país, sem muitos recursos e distante de uma cidade maior. Você vai abrir o tanque do combustível e gira a chave, você ergue a chave e a torce, quebrando na frente do frentista, que arregala os dois olhos.

Então, eu sorri e tirei da mochila uma outra chave, o frentista também sorri aliviado. Os detalhes fazem a diferença.

Segui cruzando o Chaco Argentino, este dia estava muito quente. Fiz algumas paradas para me hidratar. Em uma destas paradas, em Presidente Roque Saenz Peña-RA, utilizei o tanque o reserva para evitar transportar combustível extra, e como havia mais cidades pensei que não seria necessário.

Em Corrientes-RA, fiz uma pequena pausa, enquanto abastecia a moto um casal numa moto custom, me questionou de onde estava vindo, e acabei por resumir a história da viagem, enquanto ficaram admirados.

A situação a esta altura não era das melhores, pois tinha que percorrer um pouco mais de 300km e já eram 18:30h, certamente viajaria uma parte durante a noite. Ou pousar na cidade. Resolvi seguir em frente e parar em Posadas-RA.

Percorridos uns 150km, a escuridão começou a tomar conta. Para ajudar deveria pilotar com muito cuidado já que haviam animais soltos (literalmente) na estrada. Com o anoitecer, muitos insetos guiados pelo farol da moto, se chocavam no meu capacete, que foi aos poucos cobrindo a viseira e diminuindo a visibilidade. Até chegar a um ponto de ter que andar sem a viseira. A propósito devo registrar que nunca vi tantos insetos num lugar só.

Faltavam uns 100km, quando o nível do combustível da moto atingiu a reserva. Que sufoco, porque não tinha mais o tanque extra, e como não podia ver a velocidade que estava andando devido à lâmpada do painel estar queimada e nem a rotação já que o conta-giros não funcionava. Não pude “administrar” o consumo, e ali não seria um dos melhores lugares de se parar na estrada, que mal tinha acostamento. O jeito foi torcer e confiar na moto.

Finalmente cheguei a Posadas-RA, depois de rodar 1171km (meu recorde pessoal),  por volta das 22:00h. Abasteci a moto, liguei para minha casa e para a casa do Yoki para avisar-lhes que a viagem havia sido boa. Encontrei um hotel e fiquei de boa!!!

16/01/08 –  Posadas-RA – Cascavel-BR (451km)

O dia começou agitado e cedo, às 7:30h sai do hotel rumo a Cascavel-BR. Minha intenção era chegar se possível até o horário de almoço.

A viagem seguiu tranqüila, exceto por um “motorista” que me cortou a frente ao atravessar um cruzamento, o que gerou uma reclamação da minha parte. Outro ocorrido foi ver um cachorro cruzar a rodovia e o carro que seguia a frente atropelar o pobre animal.

Antes de chegar à aduana Argentina, abasteci a moto com o restante de pesos argentinos que ainda tinha. Na aduana aproveitei para cambiar meus últimos dólares e passar tranqüilamente (depois da fila, é claro) rumo ao Brasil.

Como é bom estar em casa novamente!

Por volta das 13:35h (BR), depois de 7300km, 2400 fotos, 3 quedas da moto, 1 acidente (o 9º da carreira), 360 litros de combustível, novos amigos, alguns carimbos no passaporte, alguns reais mais pobre e muita história pra contar, finalmente cheguei!

FIM

2 Respostas para “Atacama 2008

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